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Automobilismo Fórmula 1

Audi e BP enfrentam corrida contra o tempo para desenvolver combustível sustentável da Fórmula 1

Enquanto os pilotos disputam posições nas pistas, uma batalha silenciosa acontece nos bastidores da Fórmula 1: o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis capazes de combinar desempenho, confiabilidade e eficiência. Para a Audi e sua parceira tecnológica British Petroleum, empresa multinacional britânica do setor de energia, tradicionalmente conhecida pela atuação na indústria de petróleo e gás, a chegada do novo regulamento de 2026 exigiu meses de pesquisa e testes para encontrar a composição ideal.

Antes da atual temporada, a Fórmula 1 já contava com motores híbridos altamente eficientes, que utilizavam 10% de bioetanol. No entanto, as novas regras da FIA elevaram consideravelmente o desafio ao exigir combustíveis sustentáveis avançados, produzidos a partir de fontes como captura de carbono, resíduos urbanos e biomassa não alimentar. O objetivo vai além das pistas: desenvolver soluções que possam, no futuro, ser aproveitadas em veículos de rua.

Audi e BP avaliaram 70 componentes e testaram centenas de amostras

O processo de desenvolvimento do combustível utilizado pela Audi foi complexo. Em parceria com a BP, a fabricante alemã avaliou 70 componentes diferentes e produziu 400 amostras-piloto antes do início da temporada. Ao todo, 200 misturas foram testadas na nova unidade de potência da Audi, enquanto aproximadamente 240 mil litros de combustível experimental foram enviados à fábrica de Neuburg, na Alemanha.

Luc Jolly, responsável pela área de fluidos de tecnologia do automobilismo na BP, explicou a dimensão do trabalho realizado pelas empresas. “A Audi é uma equipe nova, com uma unidade de potência nova e um regulamento novo, além da exigência de combustíveis sustentáveis avançados. Tivemos que começar do zero para descobrir o que funcionava bem no motor da Audi e, depois disso, entender como fazer isso de maneira sustentável e aprovada pela FIA”, afirmou.

Os chamados combustíveis drop-in foram desenvolvidos para substituir os combustíveis fósseis sem exigir modificações nos motores. Na teoria, essa característica também permite que os avanços obtidos na Fórmula 1 sejam aplicados aos automóveis de produção.

Encontrar o equilíbrio entre desempenho e confiabilidade é um desafio

A busca pela mistura ideal envolve um conflito constante entre extrair o máximo de potência e preservar uma margem adequada de confiabilidade. Para Jolly, esse equilíbrio é especialmente difícil no ambiente altamente competitivo da Fórmula 1.

“A F1 é o ápice do automobilismo e da engenharia. Em qualquer projeto de engenharia, existe um compromisso entre o desempenho e a margem de confiabilidade que precisamos manter. O nível de competição é absolutamente brutal. Todas as equipes têm pessoas talentosas, mas estamos nessa jornada e acreditamos que estamos construindo bases muito sólidas neste ano.”, explicou Jolly.

A dificuldade aumenta porque o combustível não pode ser analisado de forma isolada. Sua composição precisa funcionar em conjunto com os demais componentes da unidade de potência, levando em consideração combustão, temperatura, eficiência e durabilidade.

Bortoleto destaca o papel dos pilotos no desenvolvimento

Gabriel Bortoleto, piloto da Audi, apresentou a perspectiva de quem participa diretamente dos testes na pista. Para o brasileiro, a Fórmula 1 exige uma abordagem muito diferente daquela encontrada nas categorias anteriores. “Eu cresci dirigindo, dirigindo e dirigindo, evoluindo minha técnica. Mas, quando você chega à Fórmula 1, é um mundo completamente diferente. Tudo envolve inovação, trazer melhorias para o carro, para o motor e para o combustível. Minha função é fornecer feedback quando entro no carro, e depois essa informação passa pelas áreas correspondentes.”, afirmou.

O retorno dos pilotos é utilizado pelas equipes de engenharia para identificar comportamentos do carro e possíveis oportunidades de melhoria. Dessa forma, a experiência de Bortoleto e dos demais competidores se transforma em dados que ajudam no desenvolvimento da unidade de potência e do combustível.

Regulamento de 2027 abrirá novas possibilidades

Apesar do avanço obtido em 2026, a BP entende que ainda existe uma margem significativa para o desenvolvimento dos combustíveis sustentáveis. “Há sempre espaço para continuar desenvolvendo. No primeiro ano de um ciclo regulatório, existe uma corrida para trazer melhorias e mais desempenho. Ninguém estaria em posição de afirmar que não há mais performance a ser extraída”, disse Jolly.

As mudanças previstas para 2027 deverão criar novos desafios. O aumento do fluxo de combustível será utilizado para reequilibrar a relação entre a potência do motor de combustão interna e a energia elétrica.

Segundo Jolly, a alteração será muito mais complexa do que simplesmente permitir a entrada de uma quantidade maior de combustível no motor. “É muito mais complicado do que apenas colocar mais combustível. Isso realmente altera a dinâmica dentro do motor”, alertou.

A nova configuração exigirá que fabricantes e parceiros tecnológicos revisem novamente suas soluções para acompanhar as mudanças na entrega de potência e nas exigências de eficiência.

Tecnologia da F1 pode chegar aos carros de rua

O trabalho desenvolvido pela BP na Fórmula 1 também pode gerar consequências fora do automobilismo. A empresa já avalia como os conhecimentos adquiridos no programa de competição podem contribuir para o desenvolvimento de combustíveis destinados aos veículos convencionais. “Estamos analisando quais partes do trabalho realizado pela nossa equipe dedicada à F1 poderiam beneficiar os consumidores de combustíveis rodoviários. É uma jornada que já começamos”, explicou Jolly.

A possibilidade de transferir essas tecnologias para os carros de rua é um dos principais argumentos por trás do desenvolvimento dos combustíveis sustentáveis avançados. Embora os desafios de custo, produção e distribuição ainda sejam relevantes, a Fórmula 1 funciona como um ambiente de testes para soluções que podem ser utilizadas em uma escala maior no futuro.

Com a combinação entre novas unidades de potência e combustíveis de menor impacto ambiental, a categoria pretende manter seu papel como laboratório tecnológico, agora com o desenvolvimento de alternativas para a energia que movimenta o setor automotivo.

Foto: (Reprodução: REUTERS/Jakub Porzycki)