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UFC e a difícil decisão de parar: quando um lutador deve dizer adeus?

UFC e aposentadoria parecem assuntos distantes quando um lutador está no auge. Enquanto o atleta está vencendo, conquistando cinturões e recebendo grandes bolsas, falar sobre o fim da carreira parece quase uma heresia. O problema é que, nos esportes de combate, cada nova luta também significa mais golpes, mais desgaste e novos riscos para um corpo que já passou anos sendo colocado à prova.

Por isso, uma das perguntas mais difíceis para qualquer lutador não é quem será seu próximo adversário, mas quando será o momento de parar.

A discussão ganhou força com a permanência de atletas veteranos no boxe e no MMA. Um dos exemplos mais curiosos é Yoel Romero. Aos 49 anos, o cubano continua competindo e se prepara para enfrentar Darren Till no boxe sem luvas, modalidade em que os lutadores entram em ação sem as luvas tradicionais do MMA ou do boxe.

Romero, que chegou ao UFC aos 36 anos depois de construir uma carreira de destaque na luta olímpica, não parece enxergar a aposentadoria como uma necessidade imediata. O cubano conquistou uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, e posteriormente se tornou um dos nomes mais conhecidos da divisão dos médios do UFC.

Ele chegou a disputar o cinturão da organização em três oportunidades. Agora, quase 50 anos depois, continua procurando novos desafios.

E isso levanta uma questão que não possui uma resposta simples: o desejo de continuar lutando é suficiente para justificar a permanência no esporte?

Quando o UFC deixa de ser apenas um trabalho

Para alguns atletas, o UFC é uma profissão. Para outros, representa uma parte enorme da própria identidade.

Essa diferença ajuda a explicar por que a aposentadoria pode ser tão complicada. Um lutador que passou boa parte da vida treinando duas vezes por dia não está simplesmente deixando um emprego quando decide parar. Ele está abandonando uma rotina construída durante anos.

Darren Till, por exemplo, também não demonstra estar disposto a simplesmente abandonar os esportes de combate. Aos 33 anos, o inglês deixou o UFC e passou a investir no boxe sem luvas. A modalidade mantém justamente uma das características mais violentas dos esportes de combate: os atletas continuam trocando golpes, mas sem a proteção das luvas tradicionais.

Para quem acompanha o UFC, a situação de Till é particularmente interessante porque mostra que sair da organização não significa necessariamente abandonar a luta. O atleta pode mudar de modalidade, buscar novos desafios e continuar competindo mesmo quando a carreira dentro do octógono já não parece a mesma.

O problema é que o corpo não acompanha necessariamente esse desejo.

Preço pode aparecer muitos anos depois

Uma das maiores preocupações relacionadas aos esportes de combate é que algumas consequências não aparecem imediatamente depois de uma luta.

Golpes repetidos na cabeça podem provocar problemas que só ficam evidentes anos mais tarde. Entre as condições estudadas está a encefalopatia traumática crônica, conhecida pela sigla CTE, associada a impactos repetitivos na cabeça.

É nesse cenário que entra Dave Harris, da Ringside Charitable Trust, organização britânica que presta assistência a ex-boxeadores e suas famílias.

Harris trabalha justamente com atletas que já deixaram os ringues e que passaram a enfrentar problemas físicos, comportamentais e financeiros depois da carreira. Segundo relatos apresentados na reportagem, algumas famílias procuram a organização quando percebem mudanças graves no comportamento de ex-lutadores.

Um dos casos citados é o de Jimmy Revie, ex-campeão britânico dos penas, que enfrentou problemas relacionados à demência pugilística antes de morrer aos 79 anos.

São histórias que mostram que o último combate de um lutador não necessariamente representa o fim das consequências de uma carreira.

No UFC, essa discussão também ganhou espaço ao longo dos anos. A organização possui protocolos médicos e realiza exames antes das lutas, mas a questão maior continua existindo: até que ponto um atleta deve continuar competindo quando seu corpo já acumulou anos de danos?

Kell Brook e a dificuldade de saber quando parar

O caso de Kell Brook também ajuda a ilustrar o dilema. O ex-campeão mundial dos meio-médios anunciou a intenção de voltar ao boxe aos 40 anos, mesmo depois de já ter encerrado sua carreira profissional.

Para pessoas que trabalham com segurança de atletas, um retorno assim naturalmente gera questionamentos. Não necessariamente porque existe uma idade específica em que todos deveriam abandonar o esporte, mas porque cada histórico de carreira precisa ser analisado individualmente.

A British Boxing Board of Control, responsável pela regulamentação do boxe profissional britânico, afirmou que Brook ainda não havia solicitado uma licença no momento da publicação da reportagem. A entidade também destacou seus protocolos médicos e rejeitou críticas relacionadas à forma como avalia os atletas.

O episódio mostra que a questão não envolve apenas o lutador.

Promotores, médicos, comissões atléticas, treinadores e organizações também fazem parte da equação. No UFC, por exemplo, existe toda uma estrutura responsável por autorizar e regulamentar os combates.

Ainda assim, existe uma diferença importante entre permitir que alguém lute e garantir que a decisão de continuar seja realmente a melhor para aquele atleta. São questões que se cruzam, mas não são exatamente a mesma coisa.

Dinheiro do UFC e do MMA também pesa na decisão

Não dá para falar sobre aposentadoria nos esportes de combate sem falar de dinheiro.

Para muitos lutadores, uma luta pode representar uma oportunidade importante de garantir o futuro financeiro. Isso é ainda mais relevante para atletas que não tiveram uma carreira longa no UFC ou que não conseguiram acumular grandes bolsas.

Mas o dinheiro não é o único fator.

Existe também o legado. Existe a vontade de conquistar um cinturão. Existe a necessidade de provar algo para si mesmo. E existe aquela sensação difícil de explicar de que ainda existe uma luta dentro do atleta.

Mike Tyson ofereceu um exemplo bastante conhecido dessa relação com a competição. Aos 58 anos, ele enfrentou Jake Paul em 2024 e afirmou que seu retorno não estava relacionado apenas ao dinheiro. A ideia de voltar a competir e experimentar novamente aquela sensação também teve importância para o ex-campeão mundial.

É fácil para quem está do lado de fora perguntar por que alguém simplesmente não para. Para um lutador, talvez a pergunta seja outra:

O que acontece depois que eu parar?

O nome de Dustin Poirier pode aparecer facilmente para responder essa pergunta, um lutador que dava a vida dentro do ringue, porque aquela realmente era ela. Pendurou as luvas, e viu as coisas perderem o total controle, sendo preso e participar de diversos outros problemas com a lei. Simplesmente saiu dos trilhos.

McGregor e o problema de fechar a história no UFC

Conor McGregor é outro exemplo de como a aposentadoria pode se transformar em uma história sem ponto final. O irlandês continua falando sobre um possível retorno ao UFC, mesmo depois de sofrer lesões importantes e passar um longo período afastado do octógono.

McGregor já construiu uma carreira financeiramente muito bem-sucedida e se tornou uma das maiores estrelas da história do UFC. Portanto, seu caso é diferente do de atletas que precisam lutar para garantir a própria sobrevivência financeira.

Mesmo assim, a vontade de competir permanece.

Isso mostra que o problema pode ser psicológico no sentido mais amplo da palavra — não como diagnóstico, mas como relação do atleta com sua própria identidade. Para alguém que passou décadas sendo definido como lutador, abandonar essa função pode ser extremamente difícil.

Anthony Joshua mostra outro lado da história

Anthony Joshua também oferece uma perspectiva diferente.

O britânico voltou a lutar poucos meses depois de sofrer um acidente de carro que matou dois de seus amigos próximos. O retorno aconteceu em um período de luto e mostrou como o boxe pode assumir um papel muito maior na vida de um atleta do que simplesmente ganhar dinheiro.

Joshua também possui relação com a Ringside Charitable Trust e já apoiou publicamente o trabalho da organização.

O caso serve para lembrar que não existe uma fórmula capaz de determinar automaticamente quando alguém deve parar.

Dois atletas com a mesma idade podem estar em situações completamente diferentes. Histórico de lesões, quantidade de lutas, estilo de combate, tempo de exposição aos golpes e condições médicas são apenas alguns dos fatores que precisam ser considerados.

Afinal, quando é hora de parar?

Talvez a pergunta mais importante não seja qual é a idade certa para um lutador se aposentar. Yoel Romero tem 49 anos e continua competindo. Outros atletas muito mais jovens já precisaram abandonar suas carreiras por problemas físicos.

A idade importa, mas não conta toda a história.

No UFC, assim como no boxe, a decisão precisa levar em consideração o histórico médico e esportivo de cada atleta. Também é importante que o lutador tenha acesso a informações suficientes para entender os riscos envolvidos antes de tomar uma decisão.

E existe ainda um aspecto que o público muitas vezes esquece.

O torcedor pode pedir uma última luta. O promotor pode enxergar uma grande oportunidade de negócio. O próprio atleta pode querer voltar. Mas é ele quem estará dentro do octógono quando a porta fechar, tomando mais pancadas na cabeça, ou até sendo finalizado mais uma vez.

A nostalgia de uma grande luta pode durar algumas horas. As consequências de uma carreira podem acompanhar um atleta por décadas.

Por isso, a discussão sobre aposentadoria no UFC e nos esportes de combate não deveria ser tratada apenas como uma questão de idade ou de coragem. É também uma discussão sobre saúde, autonomia, dinheiro, identidade e planejamento para a vida depois da competição.

Porque, no fim das contas, uma carreira não deveria ser medida apenas pela quantidade de lutas que um atleta conseguiu fazer. Também importa saber como ele estará quando chegar a hora de fazer a última.

Foto: Getty Images