Quando Thomas Tuchel foi questionado sobre se havia visto durante a Copa do Mundo a Inglaterra que imaginava quando assumiu o cargo, a resposta do treinador alemão veio acompanhada de hesitação. A seleção havia vencido, competido e encontrado soluções em momentos importantes, mas ainda não apresentava com consistência aquilo que Tuchel e seu auxiliar Anthony Barry planejavam desde o início do trabalho.
A questão, portanto, não era simplesmente vencer. Era estabelecer uma identidade. A Inglaterra queria construir desde trás, atrair a pressão adversária, acelerar a circulação pelo centro do campo e encontrar rapidamente os jogadores de ataque quando o adversário estivesse desorganizado. A ideia também passava por muita movimentação sem bola, pressão alta e uma reação agressiva imediatamente após a perda da posse.
Durante a Copa, esses princípios apareceram, mas de maneira irregular. Nas últimas partidas, porém, Tuchel começou a introduzir mudanças que não representam uma ruptura com o modelo anterior, mas uma evolução bastante clara. A Inglaterra continua tentando atrair o adversário para pressionar sua saída, mas agora utiliza mais jogadores na construção. Continua criando superioridade pelos lados, mas passou a concentrar ainda mais atletas em determinados setores para depois explorar o lado oposto.
O resultado é uma equipe menos previsível e, principalmente, mais preparada para controlar o comportamento do adversário.
A saída de bola ganhou um jogador a mais e mudou o papel de Anderson
Uma das principais alterações está na primeira fase de construção. Durante a Copa do Mundo, a Inglaterra utilizava com frequência os dois zagueiros e um volante como base para iniciar as jogadas. Era uma estrutura relativamente próxima de um triângulo, que permitia ao time circular a bola e procurar os jogadores mais avançados. Agora, Tuchel passou a acrescentar mais um jogador ao processo.
A estrutura pode assumir diferentes formas, principalmente um 2-2 ou um 3-1, dependendo do movimento dos jogadores. Marc Guehi e Ezri Konsa continuam participando da primeira linha, enquanto Elliot Anderson divide responsabilidades com Alex Scott ou Myles Lewis-Skelly.
Essa mudança tem uma consequência importante: Anderson deixou de ser apenas o jogador responsável por proteger a defesa e organizar a saída de maneira mais baixa.
Quando Scott ou Lewis-Skelly recuam para receber dos zagueiros, Anderson pode baixar entre eles e formar uma linha de três. Isso cria uma situação particularmente interessante porque o meio-campista passa a receber a bola de frente para o campo, com mais espaço para executar aquilo que faz melhor: encontrar passes progressivos.
Em vez de receber de costas ou sob pressão imediatamente à frente da defesa, Anderson pode aparecer em uma posição lateral da saída, observar o campo e acelerar a jogada.
É uma mudança simples na aparência, mas bastante relevante na dinâmica. Quando Anderson recebe de frente, a Inglaterra consegue procurar mais rapidamente os jogadores de ataque. E isso também cria uma conexão importante com os movimentos dos atacantes, principalmente quando um jogador recua para receber enquanto outro ataca o espaço deixado para trás.
A seleção, portanto, não está apenas construindo melhor. Está tentando construir para provocar uma reação específica do adversário.
A Inglaterra passou a atacar com mais jogadores próximos da bola
A evolução mais interessante, no entanto, aparece quando a Inglaterra ultrapassa a primeira linha de pressão e começa a atacar.
Durante a Copa, a seleção utilizava bastante os chamados triângulos pelos lados do campo. Um meio-campista, um lateral e um ponta trabalhavam juntos para criar superioridade, movimentar os defensores e abrir espaço para o jogador mais perigoso do setor.
O problema é que, depois de algum tempo, o adversário conseguia acompanhar essa movimentação. Se a Inglaterra colocava três jogadores contra três defensores, a vantagem numérica desaparecia. O duelo poderia continuar sendo favorável individualmente, mas a estrutura já não garantia uma superioridade coletiva.
Tuchel parece ter identificado esse problema. Nas partidas mais recentes, a Inglaterra passou a formar estruturas mais relacionistas, aproximando muitos jogadores de um mesmo lado do campo. Em alguns momentos, seis atletas podem estar envolvidos na construção de uma jogada pelo mesmo corredor.
Isso pode parecer um excesso de concentração, mas existe uma lógica por trás. Ao colocar muitos jogadores próximos de um lado, a Inglaterra obriga o adversário a acompanhar o movimento. A defesa precisa deslocar seu bloco para impedir que os jogadores recebam entre as linhas ou avancem em superioridade.
E é justamente nesse momento que surge a segunda parte da estratégia: o lado oposto fica desocupado. Quando a Inglaterra consegue atrair o adversário para um setor, passa a existir a possibilidade de inverter rapidamente a jogada e encontrar dois jogadores contra dois defensores, ou até um jogador completamente livre.
O objetivo não é necessariamente atacar pelo lado em que está a maior concentração de jogadores. O objetivo é utilizar essa concentração para manipular a estrutura defensiva adversária. Essa é uma diferença importante em relação à Inglaterra da Copa. Antes, os triângulos serviam principalmente para criar oportunidades naquele próprio corredor. Agora, o excesso de jogadores em um setor também serve para criar oportunidades no setor contrário.
Gordon encontrou uma nova função e Kane voltou a ser uma peça central na manipulação da defesa
O lado esquerdo talvez seja o melhor exemplo dessa evolução. Lewis Hall tem assumido uma posição bastante aberta, enquanto Anthony Gordon pode abandonar a faixa lateral e se aproximar de Harry Kane. Essa movimentação muda completamente a relação entre os três jogadores.
Hall oferece amplitude, Gordon ocupa zonas mais interiores, dando espaço para Kane recuar. Quando Kane sai da última linha e aparece entre os setores, um zagueiro pode ser obrigado a acompanhá-lo. É justamente nesse momento que Gordon pode atacar o espaço deixado pelo defensor.
A jogada deixa de depender exclusivamente de um ponta recebendo aberto e tentando superar o marcador no um contra um. A movimentação dos três jogadores passa a funcionar como uma sequência de estímulos para a defesa.
Kane recua, o zagueiro é atraído, Gordon ataca o espaço, enquanto Hall permanece aberto para impedir que a defesa simplesmente feche o corredor. Esse mecanismo também explica por que Gordon tem aparecido mais próximo da área.
Durante a Copa, o atacante ficava mais preso ao corredor e buscava principalmente atacar a profundidade para cruzar. Agora, sua posição inicial continua sendo aberta, mas seu comportamento é muito mais central.
Isso oferece à Inglaterra uma ameaça adicional sem necessariamente alterar a escalação. O mesmo princípio começa a aparecer do outro lado com Bukayo Saka. Quando o jogador responsável por manter a amplitude ocupa uma posição mais aberta, Saka pode atuar por dentro e receber em regiões mais perigosas. A diferença é que a Inglaterra passa a criar ameaças diferentes a partir da mesma estrutura.
O grande princípio de Tuchel é a movimentação, não a posição
Talvez seja possível resumir a evolução da Inglaterra em uma palavra: movimento. Tuchel parece menos preocupado em estabelecer posições fixas e mais interessado em criar relações dinâmicas entre os jogadores.
Hall pode dar amplitude enquanto Gordon entra por dentro. Quansah pode avançar além de Saka. Alexander-Arnold pode permanecer aberto enquanto Saka ocupa uma posição interior. Kane pode recuar enquanto Gordon ou Bellingham atacam a profundidade.
O importante é que os espaços deixados por um jogador sejam imediatamente ocupados por outro. Essa é a lógica dos chamados counter-movements, ou movimentos de compensação, que Tuchel vem destacando.
Quando um jogador se aproxima da bola, outro deve ameaçar o espaço contrário. Quando um jogador abandona a faixa lateral, alguém precisa oferecer amplitude. Quando Kane recua, alguém precisa atacar a última linha.
A Inglaterra não quer simplesmente movimentar seus jogadores. Ela quer que cada movimento provoque uma resposta defensiva e que outro jogador aproveite essa resposta. É aí que a equipe começa a se aproximar de uma estrutura verdadeiramente coletiva.
Trent é o exemplo perfeito do conflito entre talento individual e princípios coletivos
Poucos jogadores representam melhor essa discussão do que Trent Alexander-Arnold. Tecnicamente, o lateral do Real Madrid possui características que poderiam torná-lo indispensável. Seu passe longo, sua capacidade de cruzamento e sua qualidade para acelerar a circulação são difíceis de encontrar em qualquer elenco.
Mas Tuchel parece exigir algo além disso. O treinador deixou claro que Trent não é naturalmente um jogador de movimentos constantes sem bola. Ele não é um atleta que vive de atacar a última linha, fazer ultrapassagens ou aparecer repetidamente nas costas do adversário.
E isso cria um problema porque a Inglaterra atual depende justamente dessas movimentações. Contra a República Tcheca, Trent encontrou uma solução interessante ao permanecer mais aberto, permitindo que Saka ocupasse uma posição interior. Com isso, o lateral oferecia amplitude e qualidade no passe, enquanto o atacante podia atuar em regiões mais perigosas.
A atuação com a bola foi convincente, mas a questão continua sendo o comportamento sem ela. Contra a Croácia, Quansah ofereceu uma alternativa diferente. O zagueiro avançava repetidamente além de seu ponta, criando profundidade e permitindo que Saka alternasse entre posições abertas e interiores.
Isso explica por que a disputa não parece ser simplesmente entre Trent e Quansah. O debate é sobre qual combinação permite que o sistema funcione melhor.
Tuchel não está escolhendo necessariamente os melhores jogadores individualmente. Está tentando encontrar os melhores jogadores para cumprir determinadas relações dentro do sistema.
A pressão também mudou porque a Inglaterra passou a atacar melhor
A evolução não acontece apenas com a bola. Tuchel afirmou que a Inglaterra sempre teve uma abordagem agressiva sem posse, especialmente na pressão alta. A novidade é que a equipe passou a adicionar uma camada de intensidade quando tem a bola.
Isso parece contraditório, mas faz sentido. Quanto mais jogadores a Inglaterra aproxima do setor da bola, mais opções possui para pressionar imediatamente quando perde a posse. A mesma estrutura que cria superioridade ofensiva também pode criar uma rede de proteção para o contra-pressing.
Se seis jogadores estão próximos de um lado, a perda da bola naquele setor permite que vários deles ataquem imediatamente o portador. A ideia é recuperar a posse antes que o adversário consiga sair da pressão.
Anderson é novamente importante nesse contexto. Sua capacidade de reagir à perda e pressionar o adversário combina com a função mais dinâmica que passou a exercer.
A Inglaterra, portanto, está tentando conectar dois momentos do jogo que muitas vezes são tratados separadamente: ataque e defesa. A maneira como ataca deve prepará-la para pressionar. E a maneira como pressiona deve permitir que volte a atacar rapidamente.
Esse é um dos sinais mais claros de que Tuchel está tentando construir um sistema, e não simplesmente montar uma equipe cheia de grandes jogadores.
Tuchel finalmente parece estar construindo uma Inglaterra com identidade
Durante muito tempo, a principal crítica à Inglaterra foi justamente essa: havia jogadores extraordinários, mas faltava uma estrutura capaz de potencializar todos eles.
Tuchel parece ter entendido que seu trabalho não será simplesmente escolher os melhores onze. Será descobrir quais jogadores conseguem executar os princípios que ele considera fundamentais.
Por isso Trent pode ter dificuldades mesmo sendo tecnicamente excepcional. Por isso Anderson pode ganhar importância mesmo sem possuir o mesmo peso midiático de outras estrelas. Por isso Hall pode ser tão relevante quanto um jogador mais famoso. E por isso Gordon pode encontrar novas formas de ser decisivo começando em uma posição que, no papel, parece ser a mesma de antes.
A Inglaterra de Tuchel ainda não está pronta. O modelo continua em evolução e certamente encontrará adversários capazes de identificar seus padrões e criar problemas. Mas a diferença em relação à Copa do Mundo é perceptível. A seleção está deixando de depender apenas de momentos individuais de qualidade para criar mecanismos capazes de produzir esses momentos com maior frequência.
A grande questão agora é até onde essa evolução pode levar. Se Tuchel conseguir fazer com que os jogadores entendam que a posição inicial importa menos do que a relação entre os movimentos, a Inglaterra poderá finalmente transformar seu enorme talento individual em uma estrutura coletiva de alto nível.
Durante anos, os Three Lions foram vistos como uma seleção cheia de estrelas procurando um sistema. Agora, Tuchel parece estar fazendo o caminho contrário.
Ele já sabe qual sistema quer construir. O desafio é descobrir quais estrelas conseguem fazê-lo funcionar. E talvez essa seja a mudança mais importante desde a chegada do treinador: a Inglaterra começa, enfim, a parecer menos uma seleção montada ao redor de seus melhores jogadores e mais uma equipe na qual os melhores jogadores precisam se adaptar a uma ideia.
(foto: Getty Images)

