Giorgian De Arrascaeta chegou ao Flamengo em 2019 trazendo técnica e expectativa, mas ninguém imaginava que ele seria o eixo de um período que mudaria o peso do clube no cenário continental. Anos depois, a dúvida não deveria mais existir. Ele acumula títulos, decisões, gols fundamentais e atuações que entraram para a memória do torcedor. Em 2025, continua entregando.
Na vitória sobre o Cruz Azul na Copa Intercontinental, marcou os dois gols que garantiram a classificação e resolveu o tipo de jogo que costuma colocar fim à temporada de muita gente. Mesmo assim, ainda há resistência em colocá-lo no topo da lista dos maiores nomes que passaram pelo Flamengo.
A pergunta que surge é simples: por quê? O que falta para que parte da torcida, da imprensa e até da direção aceite algo que se tornou evidente? A discussão muitas vezes gira em torno da comparação com outros ídolos, especialmente os que marcaram época em décadas passadas. É natural que a história carregue peso emocional. O problema é quando esse peso se torna um filtro que impede a avaliação do presente.
A relutância em aceitar Arrascaeta na história do Flamengo
Para entender a relutância, vale olhar para os argumentos mais comuns. O primeiro costuma ser o da longevidade. Muita gente afirma que, para ser o maior, é preciso passar dez anos no clube e marcar era. A ironia é que Arrascaeta já caminha para isso, e faz isso em uma época muito mais desgastante. O calendário atual força jogadores a manterem alto rendimento em meio a viagens longas, lesões frequentes e mudanças de técnico que costumam mexer com esquemas e posições. Ele sobreviveu a tudo isso. Mais do que sobreviver, manteve o nível. Poucos jogadores conseguem ser protagonistas durante tantas temporadas no futebol brasileiro atual.
Outro argumento é o dos títulos. Alguns dizem que ele não pode ser comparado a lendas porque atuou em uma era em que o Flamengo investiu mais. Essa comparação ignora que investimento não garante desempenho. A história recente está cheia de clubes ricos que não obtiveram resultado nenhum.
Arrascaeta foi decisivo nas campanhas que deram ao Flamengo seus títulos mais importantes das últimas décadas. Em vários momentos, foi ele quem colocou a bola no chão, fez o último passe ou empurrou a bola para dentro quando não havia mais tempo para nada.
Quando observamos seus gols decisivos, fica difícil manter qualquer resistência. Finais de estaduais, jogos importantes no Brasileirão, partidas de mata mata na Libertadores, Copa do Mundo de Clubes e, agora, a Copa Intercontinental. Ele tem participação direta em títulos e classificações que moldaram o novo Flamengo. Não são lances isolados. São seis anos de repetição. São dezenas de momentos em que, se ele não estivesse em campo, o resultado provável seria diferente.
Reconhecer Arrascaeta não é diminuir Zico: o bastão precisa ser passado
Há também o argumento da comparação com Zico. É justo. Zico é um símbolo eterno, um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. O erro está em tratar essa comparação como uma barreira impossível de atravessar. O futebol mudou. O peso das competições mudou. A exigência física aumentou. O que antes era uma temporada de 40 ou 50 jogos hoje pode se transformar em quase 80. Fazer diferença nesse contexto exige regularidade e força mental em um nível que poucos conseguem sustentar.
Não é preciso diminuir Zico, Júnior, Leandro ou qualquer outro nome sagrado do clube. Eles foram gigantes em suas épocas. O que muitos evitam admitir é que Arrascaeta também é gigante na dele. E, ao somar impacto técnico, capacidade de decisão, títulos, protagonismo e longevidade, ele supera todos os outros quando olhamos para o conjunto.
Outro ponto pouco discutido é o impacto emocional que ele tem no torcedor. Muitos dos gols e das assistências de Arrascaeta não apenas mudaram resultados, mas mudaram estados de espírito. O torcedor do Flamengo passou a entrar em campo com a sensação de que, se ele estivesse jogando, algo poderia acontecer. Esse tipo de confiança não se constrói à toa. Ela surge de repetição. Surge de ver o mesmo jogador resolver de novo e de novo. Surge do hábito de associar seu nome a noites que ficam na memória.
A temporada de 2025 reforça tudo isso. Não é apenas uma boa fase. Não é um lampejo tardio. É a continuação de uma trajetória que já entrou na história. Contra o Cruz Azul, mais uma vez, muitos jogadores sentiram o peso da ocasião. Ele não. Ele tratou o jogo como tratou tantos outros. Recebeu, arrastou, finalizou e decidiu. O Flamengo só avançou porque ele estava lá.
Afinal, um dia vamos admitir o óbvio?
Diante de tudo isso, a pergunta inicial precisa ser virada do avesso. Não é por que ele não é considerado o maior jogador da história do Flamengo. É por que ainda fingimos que não é. Talvez seja medo de reconhecer que a história está sendo escrita agora. Talvez seja apego ao passado. Talvez seja pura resistência em aceitar que um estrangeiro se tornou o rosto do maior momento do clube em décadas.
O fato é que Arrascaeta tem tudo o que um maior da história precisa ter. Tem títulos, momentos icônicos, decisões repetidas, técnica rara e impacto emocional. Colocou o Flamengo em outro patamar. Fez isso com constância e fez isso quando mais se precisou.
Arrascaeta é o maior. E está na hora de dizer isso sem rodeios.
Foto: Gilvan de Souza/Flamengo