Quando Zlatko Dalić assumiu o comando da Croácia em outubro de 2017, a seleção atravessava um momento delicado. Restava apenas uma rodada para o fim das Eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia, e a classificação ainda estava ameaçada. Quase nove anos depois, o treinador deixou de ser apenas o homem que salvou uma campanha classificatória para se tornar o principal responsável por transformar uma nação de pouco menos de quatro milhões de habitantes em uma das seleções mais competitivas do futebol mundial.
A a Copa do Mundo de 2026 representa mais um capítulo de uma trajetória que já inclui uma final mundial em 2018, um terceiro lugar em 2022 e campanhas consistentes na Liga das Nações. Poucos treinadores conseguiram manter uma seleção competitiva durante tanto tempo em um cenário internacional cada vez mais equilibrado. Ainda mais raro é fazer isso representando um país com população, orçamento e base de atletas muito inferiores aos das grandes potências.
Dalić sempre conseguiu extrair o melhor de seus jogadores
O maior mérito de Dalić nunca foi criar uma seleção brilhante do ponto de vista estético. Sua grande virtude sempre foi outra: entender exatamente quais eram as características de seus jogadores e construir um modelo que potencializasse essas qualidades sem exigir que o elenco executasse algo que simplesmente não fazia parte de seu perfil.
Essa capacidade de adaptação explica por que a Croácia conseguiu sobreviver à renovação de sua geração dourada sem perder competitividade. Enquanto Luka Modrić envelhecia, Marcelo Brozović deixava a seleção e Ivan Rakitić encerrava seu ciclo, Dalić foi ajustando gradualmente o funcionamento coletivo, preservando princípios de organização, equilíbrio e inteligência tática que passaram a definir a identidade croata.
Em vez de reinventar completamente a equipe a cada ciclo, o treinador preferiu pequenas adaptações. Novos jogadores foram incorporados dentro de uma estrutura consolidada, facilitando a transição entre gerações e impedindo que a seleção sofresse as quedas bruscas de rendimento tão comuns após grandes campanhas em Copas do Mundo.
Esse trabalho fica ainda mais evidente quando comparado à chamada geração de ouro da Bélgica. Durante quase uma década, os belgas reuniram um elenco que, individualmente, parecia superior ao da Croácia. Kevin De Bruyne, Eden Hazard, Romelu Lukaku, Thibaut Courtois, Vincent Kompany, Toby Alderweireld, Jan Vertonghen e Yannick Carrasco formaram um grupo que muitos consideravam candidato natural a conquistar um grande título internacional.
No entanto, a Bélgica jamais conseguiu transformar esse enorme talento individual em conquistas. Houve boas campanhas, como o terceiro lugar na Copa de 2018, e novamente uma presença entre os oito melhores nesta edição do Mundial, mas sempre permaneceu a sensação de que o potencial coletivo era maior do que aquilo que efetivamente foi entregue em campo. A equipe frequentemente parecia depender da qualidade individual de seus craques, sem encontrar uma identidade tão sólida quanto a construída por Dalić na Croácia.
A comparação ajuda a explicar por que talento, isoladamente, raramente é suficiente em seleções nacionais. Enquanto a Bélgica muitas vezes buscou encaixar grandes jogadores em um mesmo sistema, Dalić fez o caminho inverso: desenhou o sistema em função das características disponíveis. A consequência foi uma equipe extremamente competitiva, confortável em diferentes contextos de jogo e preparada para enfrentar adversários tecnicamente superiores.
Essa dificuldade em transformar gerações talentosas em grandes vencedoras acompanha a história de diversas seleções consideradas “pequenas”. A Hungria de Ferenc Puskás revolucionou o futebol nos anos 1950, mas perdeu justamente a final da Copa do Mundo de 1954. A Holanda da chamada “Laranja Mecânica”, apesar de sua enorme influência tática, saiu derrotada nas decisões de 1974 e 1978. Portugal viveu gerações brilhantes com Eusébio, Luís Figo e Cristiano Ronaldo, mas durante décadas também encontrou obstáculos para converter talento em títulos de expressão mundial.
Mesmo seleções que conseguiram levantar troféus importantes normalmente enfrentaram dificuldades para manter o nível competitivo por muitos anos. A Dinamarca campeã da Eurocopa de 1992 rapidamente voltou a ocupar um papel secundário no cenário internacional. A República Tcheca vice-campeã da Euro de 1996 também não conseguiu prolongar seu auge por muito tempo.
A Croácia rompe parcialmente esse padrão justamente porque encontrou estabilidade fora das quatro linhas. A permanência de Dalić criou continuidade, algo raro no futebol de seleções. Em vez de mudanças constantes de comando e filosofia, houve tempo para consolidar processos, desenvolver lideranças e construir uma cultura competitiva que sobreviveu até mesmo às inevitáveis trocas de geração.
Outro aspecto importante é que Dalić nunca pareceu preso à ideia de reproduzir exatamente o futebol de 2018. Cada ciclo apresentou pequenas diferenças. Algumas equipes foram mais reativas, outras controlaram mais a posse de bola, mas todas mantiveram a mesma disciplina tática, organização defensiva e capacidade de competir em partidas equilibradas.
Talvez seja justamente essa flexibilidade que explique a longevidade de seu trabalho. Grandes treinadores de seleções normalmente fracassam quando tentam preservar um modelo mesmo depois que as características dos jogadores mudam. Dalić fez o contrário. Adaptou-se constantemente sem abrir mão dos princípios que considera fundamentais.
No fim das contas, o legado de Zlatko Dalić vai muito além dos resultados. Ele mostrou que uma seleção de dimensões reduzidas pode competir de igual para igual com qualquer potência quando existe um projeto claro, continuidade de trabalho e um treinador capaz de compreender profundamente seus jogadores.
Enquanto outras gerações extremamente talentosas ficaram marcadas pela sensação de oportunidade desperdiçada, a Croácia conseguiu transformar seu melhor momento histórico em uma era. E isso talvez seja a maior vitória de Dalić: fazer com que uma exceção deixasse de parecer acaso para se tornar rotina.
(Foto: Getty Images)



