Tite, Cruzeiro
Brasileirão Futebol

A escolha por Tite no Cruzeiro escancara um problema antigo do futebol brasileiro

A decisão do Cruzeiro de apostar em Tite como novo técnico simboliza um modo de pensar que insiste em sobreviver no futebol brasileiro, mesmo depois de tantos fracassos recentes. Ao optar por um treinador cujo prestígio está muito mais ligado ao passado do que ao presente, o clube mineiro abre mão de um projeto de médio prazo e reafirma uma lógica imediatista, conservadora e, sobretudo, pouco autocrítica por parte de seus dirigentes.

Tite construiu uma carreira respeitável. Isso é inegável. Campeão brasileiro, vencedor da Libertadores e nome forte da seleção brasileira por dois ciclos de Copa do Mundo, ele alcançou um status raro no país. O problema é que prestígio não é sinônimo de bom trabalho atual. E, olhando friamente para os últimos anos, Tite não entrega um trabalho realmente convincente há bastante tempo.

Na seleção, mesmo com elencos recheados de talento, o time foi previsível, engessado e incapaz de crescer nos momentos decisivos. Em 2018, caiu para a Bélgica sem reação. Em 2022, sucumbiu diante da Croácia em um jogo que escancarou problemas de leitura, substituições questionáveis e uma postura excessivamente cautelosa. Desde então, Tite não apresentou nenhuma ideia nova, nenhuma reinvenção que justificasse tratá-lo como uma solução moderna para clubes que buscam evolução.

No futebol de clubes, esse cenário se torna ainda mais delicado. O jogo mudou. A intensidade aumentou, os modelos de pressão evoluíram, a construção ofensiva exige mais variações e coragem. Tite, historicamente, sempre foi um treinador de controle, estrutura e segurança defensiva. Isso funcionou em determinados contextos. Hoje, porém, soa datado. Especialmente para um Cruzeiro que precisava pensar em identidade, crescimento e reconstrução real.

Cruzeiro escancara falta de planejamento e visão

O ponto mais crítico da escolha não está apenas em Tite, mas no que o Cruzeiro deixou para trás. O clube tinha opções promissoras e alinhadas com uma ideia de projeto. Fernando Seabra, por exemplo, representa uma geração de treinadores mais conectada com o jogo atual, com conceitos claros de posse, intensidade e desenvolvimento de elenco. Já havia mostrado potencial e poderia crescer junto com o clube.

Rafael Guanaes é outro exemplo ainda mais evidente do erro cruzeirense. Seu trabalho no Mirassol é elogiado por quem acompanha de perto o futebol brasileiro. Organização tática, time competitivo, leitura de jogo e capacidade de extrair mais do que o esperado de elencos limitados. Guanaes simboliza exatamente o tipo de treinador que clubes como o Cruzeiro deveriam apostar: alguém com fome, ideias atualizadas e margem real de evolução.

Ao ignorar esses nomes e correr para o conforto de Tite, o Cruzeiro escolheu o caminho mais fácil politicamente e o mais pobre esportivamente. Porque Tite funciona como escudo. Se der errado, a culpa “não é da diretoria”. Afinal, quem poderia prever que um técnico campeão mundial de clubes, de Libertadores e ex-seleção brasileira não daria certo? Essa lógica é antiga, conveniente e profundamente prejudicial ao futebol nacional.

Dirigentes brasileiros seguem se escondendo atrás de técnicos medalhões. Usam esses nomes como proteção institucional. Quando o projeto fracassa, demite-se o treinador, concede-se uma coletiva protocolar e tudo segue como antes. Nenhuma autocrítica, nenhuma revisão de processos, nenhuma mudança estrutural. Apenas mais um ciclo encerrado de forma apressada.

Dirigentes brasileiros não aprenderam nada

A escolha de Tite mostra que pouco se aprendeu nos últimos anos. Clubes que avançaram no futebol brasileiro foram justamente aqueles que bancaram ideias, e não currículos. Palmeiras, Flamengo0 e o próprio Mirassol em menor escala entenderam que o técnico precisa fazer parte de um projeto, e não ser o projeto em si. O Cruzeiro, ao que parece, decidiu ignorar essas lições.

Há também o risco esportivo imediato. Tite chega com expectativa alta, salário elevado e pouca margem de erro. Qualquer sequência negativa vira crise. Qualquer adaptação mais lenta será interpretada como fracasso. O ambiente tende a se deteriorar rápido, e a demissão passa a ser apenas uma questão de tempo. E quando isso acontecer, quem pagará a conta será, mais uma vez, o treinador, não quem o escolheu.

No fim das contas, o Cruzeiro desperdiça a chance de construir algo novo para repetir um roteiro conhecido. Apostar em Tite não é ousadia. É medo. Medo de errar com alguém desconhecido. Medo de assumir responsabilidade. Medo de bancar um projeto que exija paciência, convicção e trabalho real.

Enquanto dirigentes brasileiros continuarem se protegendo atrás de nomes consagrados, o futebol nacional seguirá preso ao passado. E o Cruzeiro, que já sofreu demais por decisões equivocadas fora de campo, corre o risco de apenas acrescentar mais um capítulo a essa lista.

(Foto: Divulgação/CBF)