O Grêmio entrou no Z-4, mas Renato ainda está começando
O Grêmio chegou à pausa para a Data Fifa dentro da zona de rebaixamento. O empate por 0 a 0 com o Palmeiras, na Arena, garantiu um ponto diante de um dos times que brigam pela liderança, mas não foi suficiente para tirar o Tricolor da 17ª posição.
São 29 pontos, dois atrás do Vasco, primeiro time fora do Z-4. A situação é preocupante, mas a estreia de Renato Portaluppi exige uma análise mais cuidadosa.
O treinador teve apenas dois dias de preparação antes de enfrentar o Palmeiras. Não havia tempo para transformar a equipe, muito menos para construir uma nova identidade. Por isso, avaliar o trabalho de Renato a partir de uma única partida seria precipitado.
O que o jogo mostrou, porém, já permite identificar o ponto de partida.
O Grêmio conseguiu competir defensivamente, suportou a pressão e contou com uma atuação decisiva de Weverton para não perder. Ao mesmo tempo, terminou a partida com poucas oportunidades claras e passou boa parte dos 90 minutos mais preocupado em sobreviver do que em controlar o adversário.
O empate teve valor. Mas ainda não pode ser confundido com evolução.
Weverton foi decisivo, mas o Grêmio ainda precisa jogar
A principal imagem da estreia de Renato foi Weverton.
O goleiro foi exigido diversas vezes e fez defesas de alto nível para impedir que o Palmeiras transformasse sua superioridade em gols. O adversário terminou a partida com 29 finalizações, enquanto o Grêmio teve apenas sete.
É verdade que a estratégia de Renato funcionou em parte. O treinador mudou o esquema, apostou em três zagueiros e montou uma equipe preparada para proteger a área e explorar os contra-ataques. E o Grêmio conseguiu encontrar algumas oportunidades.
Logo aos três minutos, Amuzu cruzou para Pavon, que apareceu livre, mas não conseguiu aproveitar. Aos 23, Carlos Vinícius recebeu outro bom passe e parou em Carlos Miguel. Nos acréscimos, Pavon voltou a acelerar e finalizou para nova defesa do goleiro palmeirense. Gustavo Martins ainda acertou o travessão após uma cobrança de escanteio.
O problema é que esses momentos foram exceções.
O Palmeiras controlou a maior parte da partida, teve mais posse e trocou muito mais passes. O Grêmio conseguiu resistir, mas não conseguiu transformar a estratégia de contra-ataque em uma ameaça constante.
Para escapar do Z-4, isso terá de mudar. Não será possível jogar todas as partidas esperando que Weverton faça uma atuação extraordinária.
O empate foi importante, mas não resolve o problema ofensivo
Renato disse que o resultado teve sabor de vitória. Pelo contexto, é compreensível. O Palmeiras pressionou, criou chances e poderia ter vencido. O Grêmio conseguiu sair de campo sem sofrer gols justamente em sua primeira partida sob novo comando.
Mas o treinador sabe que o objetivo não pode ser esse em todos os jogos.
Uma equipe que luta contra o rebaixamento precisa aprender a sobreviver aos momentos de pressão, mas também precisa encontrar partidas em que consiga impor seu próprio ritmo.
É aí que aparece o principal trabalho de Renato durante a pausa.
O Grêmio precisa aproximar seus jogadores de ataque, encontrar mais maneiras de fazer Carlos Vinícius participar das jogadas e dar maior presença ofensiva a Amuzu e Pavon.
O centroavante não pode passar partidas inteiras isolado entre os zagueiros. Os jogadores de lado precisam chegar mais perto da área. O meio-campo precisa oferecer mais opções para que a equipe consiga sair da pressão sem depender exclusivamente de lançamentos.
Defender melhor foi um primeiro passo. Agora, será preciso aprender a jogar.
O Grêmio é favorito ao rebaixamento?
A pergunta ganhou força porque o time entrou no Z-4, mas os números não colocam o Grêmio como o principal candidato à queda neste momento.
Com 29 pontos, o Tricolor está à frente de Chapecoense e Remo, que ocupam as últimas posições e vivem situação ainda mais complicada. Projeções estatísticas também apontam um risco elevado para o Grêmio, mas abaixo dos índices atribuídos aos dois clubes que estão na parte mais baixa da tabela.
Isso não significa que o cenário seja confortável.
O Grêmio tem apenas dois pontos de distância para o Vasco, primeiro time fora da zona, mas também não possui uma margem que permita desperdiçar muitas rodadas. A cada novo tropeço, a pressão aumenta e a quantidade de vitórias necessárias para recuperar terreno também cresce.
Por isso, talvez seja errado falar em favoritismo ao rebaixamento agora. O termo mais adequado é alerta. O Grêmio entrou em uma zona que não pode se tornar permanente.
Renato ganhou o que mais precisava: tempo
A Data Fifa chega em um momento particularmente importante para o Grêmio.
Renato não teve tempo para trabalhar antes de enfrentar o Palmeiras. Agora terá dias para fazer aquilo que não conseguiu realizar na estreia: testar alternativas, organizar o sistema e construir uma equipe que consiga competir por mais do que um empate.
A pausa também permite recuperar fisicamente o elenco e analisar quais jogadores podem oferecer mais intensidade.
Esse aspecto é fundamental.
O Grêmio já vinha apresentando queda de rendimento durante as partidas, e uma equipe que luta contra o rebaixamento não pode chegar aos minutos finais sem capacidade para pressionar, atacar ou controlar a posse.
Renato terá de resolver isso sem perder o equilíbrio defensivo que apareceu contra o Palmeiras.
É uma tarefa delicada, mas também é justamente para isso que o clube o contratou.
O Grêmio ainda pode reagir, mas a mudança precisa aparecer rápido
O empate com o Palmeiras não foi suficiente para tirar o Grêmio do Z-4, mas também não pode ser tratado como um resultado inútil. Pelo contrário.
Renato encontrou uma maneira de tornar o time mais competitivo defensivamente mesmo com pouco tempo de trabalho. Weverton teve uma atuação decisiva, a defesa conseguiu suportar o bombardeio e o Grêmio deixou a Arena com um ponto que, diante das circunstâncias, tem valor.
O problema é que a temporada não será resolvida apenas com pontos arrancados no sofrimento. O Grêmio precisa construir uma identidade.
Precisa saber quando defender, quando pressionar e, principalmente, quando atacar. Precisa fazer Carlos Vinícius receber mais bolas em condições de finalizar e transformar Amuzu, Pavon, ou outros pontas escalados, e os jogadores do meio em alternativas reais de criação.
Ainda há tempo para reagir. Mas o relógio já está correndo. O Grêmio não é o principal favorito ao rebaixamento apenas porque entrou no Z-4. A tabela mostra que outros concorrentes estão em situação ainda mais delicada. Mas também seria um erro tratar a posição atual como algo passageiro.
Renato terá a Data Fifa para começar a mudar essa história. O empate contra o Palmeiras deu ao novo treinador um ponto e uma base defensiva para trabalhar. Agora, ele precisa fazer algo mais difícil: transformar resistência em futebol.
O Grêmio ainda não está condenado, mas também já não pode esperar que apenas a camisa, a torcida ou os milagres de Weverton sejam suficientes para salvá-lo.
FOTO: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA/DIVULGAÇÃO



