O Manchester City começou a nova temporada da Premier League com uma grande pergunta no meio-campo e Enzo Maresca decidiu procurar uma resposta onde poucos esperavam. Sem medo de causar estranhamento logo em seu primeiro jogo no comando da equipe, o treinador escalou Marc Guehi, zagueiro de origem, como volante diante do Bournemouth.
A ideia, naturalmente, levantou algumas sobrancelhas antes mesmo de a bola rolar no Etihad Stadium. Guehi nunca havia construído sua carreira como meio-campista, e o Manchester City ainda tinha Mateo Kovacic como opção no banco de reservas. Mesmo assim, Maresca bancou a escolha.
Por boa parte da partida, parecia que a estreia do treinador na Premier League poderia terminar em uma tarde bastante desconfortável. Depois da derrota por 3 a 0 para o Arsenal na Community Shield, o City caminhava para iniciar a temporada com mais um resultado negativo.
O defensor, escalado no meio-campo, apareceu na área para marcar de cabeça aos 39 minutos do segundo tempo e iniciar a reação do Manchester City. Pouco depois, Josko Gvardiol marcou o gol da virada e garantiu o triunfo por 2 a 1.
No fim das contas, o jogador que poderia ser apontado como símbolo de uma escolha estranha acabou ajudando a transformar a experiência em uma das principais histórias da rodada.
Maresca enxergou um volante em Guehi
A escalação chamou atenção desde o aquecimento. Enquanto a linha defensiva realizava os trabalhos habituais, Guehi participava de uma preparação diferente, deixando cada vez mais evidente que não atuaria como zagueiro.
Quando a partida começou, não restou dúvida.
O inglês ocupou uma posição no meio-campo e recebeu uma responsabilidade considerável: ajudar a proteger a defesa e também participar da construção das jogadas. Era uma função completamente diferente daquela que o tornou um dos defensores mais valorizados do futebol inglês.
Depois da vitória, Guehi admitiu que a novidade também não era exatamente algo comum para ele.
O jogador explicou que a ideia surgiu durante os treinamentos da semana e que o elenco vem testando alternativas para encontrar soluções. A experiência, segundo ele, acabou sendo positiva graças ao suporte recebido dos companheiros.
Maresca, por sua vez, deixou claro que a escolha não foi improvisada.
O treinador afirmou que já acompanhava Guehi desde os tempos do defensor no Crystal Palace e sempre acreditou que ele tinha características capazes de funcionar no meio-campo. A experiência foi trabalhada por alguns dias antes da partida e, depois da atuação diante do Bournemouth, ganhou argumentos para ser repetida.
A pergunta agora é simples: será que nasce ali uma nova opção para o setor ou tudo não passou de uma solução temporária?
Números ajudam a explicar a aposta
A atuação de Guehi não foi marcada apenas pelo gol que mudou o rumo da partida.
Mesmo jogando fora de sua posição habitual, o inglês venceu os três desarmes que tentou, mais do que qualquer outro jogador presente em campo. Além disso, acertou 94,9% dos passes em 59 tentativas e venceu oito dos 11 duelos que disputou.
São números que ajudam a entender por que Maresca se sentiu confortável em colocá-lo no meio-campo.
Guehi sempre foi um defensor seguro com a bola nos pés, e a leitura de jogo necessária para atuar na defesa pode explicar parte de sua adaptação. A grande diferença está na quantidade de decisões que precisam ser tomadas em espaços mais congestionados.
Como volante, não existe muito tempo para pensar.
Um erro de posicionamento pode deixar o adversário de frente para a defesa. Um passe ruim pode gerar um contra-ataque. Ao mesmo tempo, o jogador precisa oferecer uma opção para os companheiros, controlar o ritmo e encontrar espaços.
Não é uma mudança simples. Mas Guehi passou pelo teste inicial. E, depois da partida, ainda brincou sobre seu futuro quando foi perguntado onde jogaria na próxima rodada.
“Quem sabe? Talvez no ataque.”
Se Maresca continuar nesse ritmo, ninguém deveria descartar completamente a possibilidade.
Manchester City vive um período de transformação
A experiência com Guehi também ajuda a explicar o momento vivido pelo Manchester City.
A equipe passou anos tendo uma base extremamente consolidada sob o comando de Pep Guardiola, mas a chegada de Maresca marca o início de uma nova fase. E essa transição acontece ao mesmo tempo em que o elenco sofre mudanças importantes.
O meio-campo, principalmente, perdeu referências.
Rodri, vencedor da Bola de Ouro de 2024, deixou o clube para defender o Barcelona, enquanto Tijjani Reijnders também seguiu para o futebol saudita. O setor que durante anos foi um dos grandes pilares do Manchester City agora precisa encontrar novas soluções.
Elliot Anderson, contratado por um valor recorde pelo clube, já começou a mostrar um pouco do que pode oferecer. O meio-campista atuou durante uma hora em sua estreia na Premier League e demonstrou capacidade para cobrir espaços e interromper ataques adversários. Mas o Manchester City também está se movimentando no mercado.
Pouco antes da partida contra o Bournemouth, surgiu a informação de que o clube havia chegado a um acordo de 86 milhões de libras para contratar Ayyoub Bouaddi, jovem meio-campista do Lille.
Curiosamente, Maresca afirmou depois do jogo que ainda não tinha conversado com os dirigentes sobre o negócio.
Ou seja, enquanto o Manchester City negocia um dos talentos mais promissores do futebol europeu, o treinador encontra uma solução dentro do próprio elenco e coloca um zagueiro para atuar como volante.
Não é exatamente o caminho mais óbvio, mas funcionou.
Guehi será uma solução temporária?
A tendência é que a chegada de Bouaddi mude novamente o cenário do meio-campo do Manchester City. Com apenas 18 anos, o jovem chegaria com enorme responsabilidade e um preço que naturalmente aumentará a expectativa sobre seu desempenho.
A ideia seria formar um novo eixo no setor ao lado de Elliot Anderson.
Por isso, a utilização de Guehi como volante pode acabar sendo uma solução circunstancial, especialmente enquanto Maresca conhece melhor o elenco e espera a integração de jogadores que chegaram mais tarde por causa da Copa do Mundo.
O ex-goleiro Joe Hart destacou justamente esse momento de transformação. Segundo ele, o Manchester City mudou bastante e ainda está tentando encontrar a melhor combinação possível, mas a expectativa em torno do clube continua a mesma. E esse talvez seja o maior desafio de Maresca.
O Manchester City pode estar reconstruindo seu elenco, testando jogadores em novas funções e tentando encontrar uma identidade diferente após a saída de Guardiola. Mas, na Premier League, ninguém parece disposto a dar tempo para esse processo acontecer.
O clube continua entrando em campo com a obrigação de vencer. Contra o Bournemouth, por 84 minutos, essa pressão parecia prestes a aumentar. Guehi, no entanto, resolveu aparecer no lugar certo e no momento certo para mudar a história.
Talvez ele não seja volante na próxima rodada. Talvez Bouaddi chegue e ocupe o espaço. Talvez Kovacic volte ao time. Ou talvez Maresca tenha encontrado uma carta na manga que nem o próprio Guehi sabia que existia.
Por enquanto, o Manchester City conseguiu o mais importante: venceu, evitou uma crise logo no início da temporada e descobriu que, em caso de emergência, pode pedir para Marc Guehi subir do meio-campo. Só não vale reclamar se Maresca resolver testar a promessa do jogador e escalá-lo de centroavante.
Foto: Reuters



