Newcastle
Futebol Premier League

Newcastle de Jaissle mostra que pode não precisar de tempo para ser interessante

O Newcastle começou uma nova era cercado por dúvidas, mas a atuação diante do Liverpool mostrou que talvez seja cedo demais para colocar os Magpies na prateleira dos times que vão apenas cumprir tabela na Premier League. O empate por 2 a 2, arrancado de forma dolorosa nos minutos finais em St James’ Park, deixou frustração pelo resultado, mas também trouxe sinais animadores para Matthias Jaissle e seus jogadores.

A cena após o apito final resumiu bem o sentimento. Mesmo depois de ver o Liverpool buscar o empate com um pênalti convertido por Dominik Szoboszlai nos acréscimos, boa parte da torcida permaneceu no estádio para aplaudir o time. Não era exatamente clima de comemoração, mas havia um entendimento coletivo: aquele Newcastle, mesmo em reconstrução, tinha mostrado algo.

E, depois de tantas mudanças nos últimos meses, mostrar algo já é um começo importante.

Novo Newcastle

O Newcastle chega à temporada após uma transformação profunda. O clube perdeu jogadores importantes como Alexander Isak, Anthony Gordon, Sandro Tonali e Bruno Guimarães, além de ter visto Eddie Howe deixar o comando técnico. Para qualquer equipe, perder tantas referências de uma vez seria suficiente para causar um pequeno terremoto.

A aposta, então, foi em uma reconstrução com Matthias Jaissle no banco. O problema é que o treinador também chegava cercado de interrogações. Sem experiência anterior na Premier League, ele assumiu um elenco reformulado e com reforços jovens, todos com 24 anos ou menos e sem experiência na competição inglesa.

Era natural que surgissem previsões pessimistas. Alguns já olhavam para o Newcastle imaginando uma temporada de adaptação, dificuldades e, talvez, uma briga bem distante das posições mais altas da tabela.

Jaissle, evidentemente, não parece interessado em aceitar esse roteiro.

Após o empate contra o Liverpool, o treinador fez questão de destacar o que viu durante os 90 minutos. Apesar da revolta com o pênalti marcado nos acréscimos, considerado por ele uma decisão “leve”, a mensagem aos jogadores foi de orgulho.

Para o técnico, aquela atuação representa um ponto de partida. E, olhando para a intensidade apresentada pelo Newcastle, é difícil discordar.

Intensidade, coragem e uma torcida presente

O ambiente em St James’ Park também ajudou a transformar o jogo em algo especial. A partida teve uma homenagem a Kevin Keegan, um dos grandes símbolos da história do clube, e o estádio entrou no clima desde antes da bola rolar.

Uma enorme bandeira preparada pelo grupo Wor Flags tomou as arquibancadas, enquanto uma frase de Keegan servia quase como um manifesto para o momento atual do Newcastle: o torcedor deve sonhar com seu clube e não aceitar facilmente a ideia de que algo é impossível.

A mensagem encaixou perfeitamente com a situação da equipe.

O Newcastle entrou em campo contra um dos principais adversários da Premier League sem demonstrar medo. A equipe pressionou, atacou os espaços, competiu fisicamente e mostrou uma disposição que pode se tornar uma das principais marcas do trabalho de Jaissle.

Claro, ainda há muito para ajustar. Nenhum time se transforma em candidato a grandes conquistas apenas por uma boa atuação em agosto. Mas existe uma diferença importante entre um elenco que parece perdido e outro que já demonstra entender o que o novo treinador quer.

Contra o Liverpool, o Newcastle parecia saber exatamente qual era a ideia.

Wissa assume protagonismo e Elanga responde

Entre os jogadores que chamaram atenção, Anthony Elanga teve um papel importante ao abrir o placar com uma finalização precisa. O atacante, que viveu uma primeira temporada complicada no clube, começa a ganhar uma nova oportunidade em um cenário diferente.

Outro destaque foi Yoane Wissa.

O atacante mostrou que pode assumir responsabilidades maiores sob o comando de Jaissle e foi peça fundamental na construção do segundo gol, marcado por Joe Willock. Mais do que a participação ofensiva, porém, chamou atenção o trabalho sem a bola.

Wissa venceu 11 duelos, mais do que qualquer outro jogador do Newcastle na partida. Para um atacante, o número ajuda a explicar o tipo de futebol que Jaissle parece querer implementar: ninguém fica apenas esperando a bola chegar.

O próprio Wissa revelou que recebeu do treinador a missão de liderar o grupo, pressionar, recuperar bolas e ajudar a equipe a manter a intensidade. Em outras palavras, o camisa ofensivo ganhou também uma função de operário.

E, convenhamos, em uma Premier League cada vez mais intensa, atacante que só aparece para finalizar está virando artigo de luxo.

Problema que ainda persegue o Newcastle

Apesar dos sinais positivos, o empate também trouxe de volta um fantasma conhecido.

Na última temporada, nenhum time da Premier League deixou escapar tantos pontos depois de abrir vantagem quanto o Newcastle: foram 27 pontos desperdiçados em posições de vitória. A equipe voltou a sofrer justamente com a incapacidade de matar o jogo quando teve a oportunidade.

Jaissle reconheceu isso ao comentar que Wissa poderia ter definido o confronto quando o placar ainda estava 2 a 1. O Newcastle teve momentos para construir uma vantagem maior, mas deixou o Liverpool vivo.

Contra equipes desse nível, o preço costuma chegar. E chegou.

O pênalti sofrido por Lewis Hall sobre Victor Muñoz, já nos minutos finais, permitiu que Szoboszlai empatasse o jogo e frustrasse uma vitória que teria um peso enorme para o início do novo projeto.

Ainda assim, a reação após o empate também merece destaque. O Newcastle não desmoronou, não entrou em pânico e saiu de campo com o apoio da torcida.

Segundo Jaissle, os jogadores mostraram união mesmo quando algo deu errado. Para um time que está começando uma nova fase, essa talvez seja uma das melhores notícias.

Newcastle pode surpreender?

É cedo para colocar o Newcastle entre os grandes candidatos da Premier League. O elenco ainda passa por mudanças, o treinador precisa conhecer melhor as particularidades do campeonato e o time claramente necessita resolver alguns problemas que já apareciam na temporada passada. Mas descartá-lo seria um erro.

A atuação contra o Liverpool mostrou um time disposto a correr, competir e jogar com coragem. Mostrou também jogadores assumindo novas responsabilidades e uma torcida completamente conectada ao momento do clube.

Dan Burn resumiu bem esse espírito ao dizer que o Newcastle funciona melhor quando sente que está contra o mundo. Talvez seja exatamente essa mentalidade que Jaissle precisa explorar.

O caminho não será simples, e o empate diante do Liverpool deixou claro que ainda existem pedras no meio dele. O próprio treinador usou essa imagem ao falar que alguém colocou obstáculos no percurso e que o time precisará removê-los para voltar a ter sucesso.

A diferença é que, depois do que se viu em St James’ Park, o Newcastle parece disposto a pegar essas pedras e continuar correndo.

E, se mantiver a intensidade, a coragem e a conexão com sua torcida, os Magpies podem acabar transformando as previsões pessimistas em mais uma motivação. Na Premier League, ignorar um Newcastle disposto a comprar briga com qualquer adversário pode ser uma péssima ideia.

O primeiro grande aviso já foi dado.

Foto: Reuters