A chegada de Lucas Paquetá ao Flamengo representa muito mais do que um reforço de peso ou um retorno simbólico de um jogador formado no Ninho do Urubu. Trata-se de um movimento que impacta diretamente o modelo de jogo, a hierarquia técnica do elenco e, sobretudo, as decisões táticas do técnico Filipe Luís. Ídolo recente como jogador e agora em início de trajetória à beira do campo, Filipe recebe um desafio raro: encaixar um talento versátil, de alto custo técnico e emocional, em um time que já possui nomes consolidados no meio-campo.
Paquetá chega com status de protagonista, mas não encontra um cenário simples. O Flamengo atual tem um setor central competitivo, com Jorginho, Erick Pulgar e Arrascaeta como pilares de organização e controle. A forma como Filipe Luís decidir utilizar o meia pode redefinir o equilíbrio da equipe, para o bem ou para o mal. Por isso, vamos entender como o treinador pode utilizá-lo.
Paquetá como um meia de ligação
A utilização mais intuitiva, e provavelmente a primeira a ser testada, é Paquetá como meia de ligação. Foi assim que ele se destacou na Europa e também em momentos pela Seleção Brasileira: flutuando entre linhas, conectando meio e ataque, chegando à área como elemento surpresa. Nesse papel, Paquetá teria liberdade para acelerar o jogo, combinar com Arrascaeta e potencializar atacantes.
No entanto, essa escolha traz uma consequência importante. Com Paquetá centralizado, Jorginho tende a recuar para atuar como primeiro volante, função que não é exatamente a que extrai seu melhor futebol. Diferentemente de Pulgar, que oferece maior proteção defensiva e presença física, Jorginho é um organizador, alguém que pensa o jogo de frente e dita o ritmo. Ao deslocá-lo para uma posição mais fixa à frente da zaga, o Flamengo pode perder equilíbrio defensivo e fluidez na saída de bola, criando um meio-campo mais vulnerável às transições rápidas dos adversários.
Esse possível desbalanceamento não é um detalhe menor. Em um calendário pesado, com Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, o Flamengo será constantemente testado por equipes que exploram contra-ataques e duelos físicos no meio. Filipe Luís precisará avaliar se o ganho criativo com Paquetá como meia central compensa a perda de proteção que Pulgar costuma oferecer quando Jorginho atua mais adiantado.
Paquetá como um ponta pela direita
Uma segunda alternativa seria utilizar Paquetá pela direita, como um ponta mais construtor do que explosivo. A ideia permitiria ao Flamengo manter sua estrutura habitual no meio-campo, preservando o eixo Pulgar-Jorginho-Arrascaeta, enquanto Paquetá atuaria aberto, cortando para dentro e participando da construção ofensiva. Em teoria, essa função poderia aproveitar sua inteligência tática e capacidade de associação curta.
Na prática, porém, essa opção apresenta limitações claras. Paquetá não é um jogador de velocidade pura, nem de drible constante em profundidade. Atuando aberto, ele tende a perder suas principais valências: a chegada pelo centro, o jogo entre linhas e a leitura de espaços próximos à área. Além disso, sua menor intensidade defensiva como ponta pode expor o corredor direito, oferecendo aos adversários um caminho recorrente para atacar o Flamengo, especialmente contra equipes que utilizam pontas rápidos e laterais ofensivos.
Essa alternativa, portanto, parece mais situacional do que estrutural. Pode funcionar em jogos específicos, contra adversários fechados ou em momentos de controle de posse, mas dificilmente será a base do time ao longo da temporada.
Uma possível disputa de posição com Arrascaeta
A terceira opção, e a que surge como mais provável, é a divisão de espaço criativo entre Paquetá e Arrascaeta. Em vez de sobrecarregar um único armador, Filipe Luís pode optar por alternar ou até combinar os dois em determinadas formações, explorando a enorme quantidade de jogos que o Flamengo terá em 2025. O uruguaio, referência técnica do time nos últimos anos, já não atua todas as partidas em altíssimo nível físico, e a presença de Paquetá permite uma gestão mais inteligente do elenco.
Nesse cenário, Paquetá não chega para “tirar” Arrascaeta, mas para complementar e dividir responsabilidades. Em alguns jogos, um pode atuar mais centralizado enquanto o outro flutua; em outros, a alternância pode ser feita de acordo com o adversário, o momento da temporada ou a necessidade física. Esse modelo oferece profundidade, imprevisibilidade e, principalmente, preservação de seus principais talentos para decisões.
Além disso, a convivência dos dois como armadores cria um Flamengo mais versátil, capaz de variar ritmo, ocupação de espaços e forma de atacar. É um luxo que poucos clubes sul-americanos possuem e que exige sensibilidade do treinador para não transformar abundância em conflito.
A opção da mudança de formação
Embora tenha muitos pontas no elenco, como Luiz Araújo, Samuel Lino e Everton Cebolinha, Filipe Luís também pode aproveitar a chegada de Paquetá para variar as formações de seu time. O técnico pode optar por ter um 4-4-2 em formato de losango, utilizando Pulgar como uma âncora defensiva, Paquetá e Jorginho como meias de ligação em posições diferentes, e Arrascaeta mais à frente, liberando os laterais e dando mobilidade para a dupla de ataque, que pode ser formada por Bruno Henrique e Pedro.
Outra opção também seria a variação para três zagueiros. No 3-4-3, o Flamengo teria mais controle de posse de bola, além de ter Paquetá e Arrascaeta jogando mais próximos um do outro. Na defesa, Filipe pode optar por ter Danilo formando a zaga com Léo Pereira e Léo Ortiz, oferecendo sustentação defensiva e compactação das linhas com Pulgar e Jorginho como volantes.
No final, alguma coisa vai mudar com a chegada de Paquetá. Resta saber se isso vai ser bom ou ruim para um time multicampeão como o Flamengo.
(Foto: Getty Images)