O Brasil nunca precisou procurar muito longe quando o assunto era treinador da Seleção. Ao longo da história, os cinco títulos mundiais foram conquistados sob o comando de técnicos brasileiros, algo que ajudou a construir a ideia de que o país deveria resolver seus problemas dentro de casa. No entanto, a contratação de Carlo Ancelotti representa uma mudança significativa nesse pensamento. Pela primeira vez, o Brasil decidiu entregar seu principal projeto esportivo a um treinador estrangeiro em tempo integral, apostando que a experiência do italiano pode ser o diferencial na busca pelo tão sonhado hexacampeonato.
A escolha não aconteceu por acaso. O Brasil chega à Copa do Mundo de 2026 carregando um jejum de mais de duas décadas sem levantar o troféu mais importante do futebol. Desde a conquista de 2002, a Seleção acumulou eliminações dolorosas, mudanças de planejamento e diferentes perfis de treinadores, mas sem conseguir voltar ao topo. Diante desse cenário, a CBF concluiu que era hora de tentar algo diferente.
Mais do que contratar um técnico multicampeão, o Brasil buscou um profissional capaz de lidar com um elenco formado majoritariamente por jogadores que atuam na Europa e que conhecem de perto os métodos de trabalho do futebol do continente. Nesse aspecto, poucos nomes pareciam tão adequados quanto Carlo Ancelotti.
O Brasil chegou ao limite da paciência após mais um ciclo frustrante
A passagem de Dorival Júnior pelo comando da Seleção não foi um desastre em termos de resultados. O treinador acumulou números razoáveis e conseguiu manter certa estabilidade em um período de reconstrução. No entanto, o Brasil continuou apresentando dificuldades contra os principais adversários e não convenceu quando enfrentou seleções de alto nível.
A derrota por 4 a 1 para a Argentina acabou se transformando em um divisor de águas. Mais do que o placar, o que incomodou foi a diferença de desempenho entre as equipes. Enquanto a Argentina demonstrava organização e confiança, o Brasil parecia distante de ter uma identidade consolidada dentro de campo.
A goleada aumentou a pressão sobre Dorival e reforçou um sentimento que já existia entre dirigentes e torcedores: o Brasil precisava de uma mudança de direção antes da Copa do Mundo. Poucos dias depois, a saída do treinador foi confirmada e a busca por um novo comandante voltou a colocar Carlo Ancelotti no centro das atenções.
O sucesso dos estrangeiros mudou a forma como o Brasil enxerga os treinadores
Durante muitos anos, a simples ideia de um estrangeiro comandar o Brasil era vista com enorme resistência. Essa visão, porém, foi mudando gradativamente à medida que técnicos de outros países passaram a conquistar espaço e títulos importantes no futebol brasileiro.
O trabalho de Jorge Jesus no Flamengo abriu portas para uma nova realidade. Logo depois vieram os sucessos de Abel Ferreira no Palmeiras, Artur Jorge no Botafogo e Juan Pablo Vojvoda no Fortaleza. Enquanto os estrangeiros acumulavam resultados expressivos, os treinadores brasileiros passaram a ser questionados com mais frequência.
Essa transformação ajudou a diminuir a resistência em relação à chegada de Ancelotti. Quando o Brasil finalmente decidiu apostar em um técnico estrangeiro, o ambiente já era muito diferente daquele que existia uma década atrás.
Por que o Brasil insistiu tanto em Carlo Ancelotti?
A verdade é que o interesse da seleção sul-americana por Ancelotti não começou em 2025. A CBF já tentava convencer o treinador a assumir essa responsabilidade desde os tempos em que ele comandava o Real Madrid.
Mesmo durante a passagem de Fernando Diniz e posteriormente de Dorival Júnior, o nome do italiano continuava sendo tratado como um sonho dentro da entidade. A admiração era baseada não apenas nos títulos conquistados, mas também na capacidade de administrar grandes estrelas e construir ambientes vencedores.
Quando surgiu a oportunidade de deixar o Real Madrid, o Brasil não hesitou. Depois de anos de espera, a negociação finalmente saiu do papel e colocou um dos treinadores mais vitoriosos da história à frente da maior seleção do planeta.
O encaixe entre Ancelotti e o Brasil vai além dos títulos
Outro fator que explica a escolha é a relação construída por Ancelotti com o futebol brasileiro ao longo de sua carreira. Poucos treinadores trabalharam com tantos craques da Amarelinha quanto ele.
No Milan, o italiano comandou jogadores como Kaká, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu e Dida. No Real Madrid, participou diretamente da evolução de Vinicius Júnior, Rodrygo, Éder Militão e Casemiro. Ao longo de décadas, Ancelotti criou uma conexão natural com diferentes gerações de atletas brasileiros.
Esse conhecimento pode ser uma vantagem importante para o Brasil em uma competição curta como a Copa do Mundo. O treinador não precisará descobrir quem são suas principais referências técnicas ou entender como cada jogador reage sob pressão. Em muitos casos, ele já conhece essas respostas há anos.
Por isso, a contratação de Carlo Ancelotti representa mais do que uma simples troca de comando. Ela simboliza uma mudança de mentalidade dentro do país. Depois de anos apostando em soluções internas, a Seleção decidiu buscar fora do país o nome que considera mais preparado para encerrar o jejum mundialista. Agora, resta saber se a decisão será lembrada como o início do caminho rumo ao hexa ou apenas mais um capítulo na longa busca do Brasil por voltar ao topo do futebol mundial.
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