A temporada 2025-26 da Premier League foi, provavelmente, uma das mais equilibradas dos últimos anos. Embora a diferença de 65 pontos entre o campeão Arsenal e o último colocado Wolves tenha ficado próxima da média de uma competição com 38 rodadas, foi no meio da tabela que aconteceu uma verdadeira transformação.
Desde que a Premier League passou a ter 20 clubes, na temporada 1995-96, a distância entre as equipes que ocupam as primeiras posições e aquelas que lutam contra o rebaixamento vinha aumentando. Os clubes mais tradicionais se beneficiavam das participações em competições europeias e das receitas maiores obtidas com boas campanhas no Campeonato Inglês.
Na última temporada, porém, essa tendência mudou. A diferença entre os clubes da parte de cima e os três últimos colocados caiu de 44 pontos em 2024-25 para apenas 26. Foi a menor distância registrada em 23 anos, desde os 25 pontos de diferença em 2002-03.
Briga por vagas europeias aumentou
A disputa pelas posições que garantem classificação para as competições europeias também ficou mais aberta. O Aston Villa conseguiu chegar à Champions League mesmo terminando com um ponto a menos do que na temporada anterior. A equipe terminou duas posições acima e garantiu uma vaga na principal competição da Europa.
O Liverpool também aproveitou a situação e ficou com a vaga adicional na Champions League ao terminar em quinto lugar. Porém, seus 60 pontos representaram a menor pontuação de um quinto colocado em 19 anos. Em 2024-25, esse mesmo número teria colocado a equipe apenas na nona posição.
Bournemouth e Sunderland foram outros clubes que souberam aproveitar o cenário mais equilibrado. Os dois conseguiram classificação para competições europeias pela primeira vez em suas histórias, no caso do Bournemouth, e depois de mais de meio século, no caso do Sunderland.
Enquanto os clubes que brigavam pela Europa precisaram de menos pontos do que o habitual, as equipes da metade inferior também apresentaram números acima do que vinha sendo registrado nos últimos anos. Isso mostra que a posição final na tabela pode não representar exatamente a força de alguns desses times.
Parte de baixo também ganhou força
O Everton, por exemplo, terminou apenas na 13ª posição e provavelmente não ficou satisfeito com o resultado. Ainda assim, os Toffees alcançaram a maior pontuação de um 13º colocado na Premier League desde que o próprio clube conseguiu esse feito na virada do milênio.
Os quatro times que terminaram logo abaixo também alcançaram suas maiores pontuações na competição em 23 anos. O West Ham, por sua vez, pode considerar que teve azar ao ser rebaixado com a maior quantidade de pontos de um 18º colocado desde a temporada 2010-11.
O equilíbrio aparece de maneira ainda mais clara quando se observa a distribuição geral. 13 dos 20 clubes terminaram a temporada entre 40 e 60 pontos, algo que não acontecia desde 2003-04, quando também foram 13 equipes dentro dessa faixa.
A grande questão é entender o motivo desse cenário. A Premier League ficou mais competitiva porque os clubes considerados menores evoluíram ou porque os principais times perderam força? Não existe uma resposta definitiva.
Clubes menores estão mais preparados
Há argumentos para acreditar que os times da parte inferior realmente ficaram melhores. Clubes como Brighton, Brentford e Bournemouth demonstraram nos últimos anos que equipes com menos tradição podem montar projetos competitivos e inteligentes.
Além disso, o enorme poder financeiro da Premier League permite que até clubes da metade inferior da tabela busquem jogadores de qualidade no mercado internacional. A força dos times ingleses também aparece nas competições europeias, especialmente na Europa League e na Conference League.
Por outro lado, o desempenho do Sunderland mostra que talvez a liga não tenha sido tão forte quanto os números podem sugerir. Recém-promovido depois de vencer os playoffs, o clube conseguiu terminar à frente de 13 equipes em sua primeira temporada de volta à elite.
Também é impossível ignorar a queda de rendimento de alguns clubes que estavam no topo em 2024-25. Liverpool, Chelsea, Newcastle e Nottingham Forest haviam terminado entre os sete primeiros naquela temporada. Juntos, porém, os quatro somaram 79 pontos a menos na campanha seguinte.
Gigantes perderam pontos importantes
A queda do Nottingham Forest era relativamente esperada depois de uma campanha extraordinária em 2024-25, quando o clube terminou em sétimo e ainda chegou às semifinais da Europa League na temporada seguinte.
Os desempenhos de Liverpool, Chelsea e Newcastle, entretanto, foram mais surpreendentes. A perda de pontos dos três ajudou a abrir espaço para clubes que normalmente não aparecem na disputa pelas primeiras posições.
O movimento dos recém-promovidos também foi importante. Sunderland e Leeds quebraram uma sequência recente de equipes que chegavam da Championship e tinham dificuldades para competir na Premier League. Os dois somaram, juntos, 64 pontos a mais do que os clubes que substituíram na primeira divisão.
Isso criou uma situação curiosa para a temporada 2026-27. Bournemouth, Brighton e Sunderland terão compromissos europeus, enquanto Chelsea, Tottenham e Newcastle não disputarão competições continentais.
Esse cenário pode provocar mudanças na hierarquia do futebol inglês. Os clubes que normalmente brigam na parte de cima terão mais tempo para se concentrar na Premier League, enquanto equipes que ganharam força recentemente precisarão lidar com viagens e jogos adicionais.
Competição também aumenta risco de queda
Apesar de o equilíbrio ter aumentado na maior parte da tabela, existe uma região em que a Premier League ficou menos competitiva: a parte mais baixa.
É cada vez mais comum que uma equipe fique isolada na zona de rebaixamento antes mesmo das últimas rodadas. Nos últimos anos, porém, esse fenômeno passou a atingir dois clubes, deixando a disputa pela permanência concentrada principalmente na última vaga disponível.
Em uma temporada de 38 jogos, o segundo colocado da zona de rebaixamento costuma terminar com aproximadamente 31 pontos. Isso significa que as equipes que ocupam essa posição normalmente permanecem na luta pela permanência durante boa parte da campanha antes de serem derrotadas pela tabela.
Depois da redução da Premier League para 20 clubes em 1995-96, apenas duas equipes que terminaram em 19º lugar tiveram menos de 30 pontos nas primeiras 21 temporadas. Na última década, porém, sete dos dez times que acabaram nessa posição não conseguiram alcançar essa marca.
O cenário ficou ainda mais extremo nas duas últimas temporadas. Ipswich e Burnley, ambos promovidos, terminaram em 19º lugar com apenas 22 pontos. Foi a menor pontuação da história da Premier League para uma equipe que terminou na segunda posição da zona de rebaixamento.
Promovidos terão novo desafio
Com isso, a briga contra o rebaixamento passou a ter uma característica diferente. Em muitos casos, duas das três equipes que caem são praticamente definidas antes da última rodada, enquanto a verdadeira disputa acontece pela terceira vaga na Premier League.
Os clubes promovidos costumam ser os principais candidatos a essas posições, mas Sunderland e Leeds mostraram que é possível chegar à elite e competir imediatamente.
Agora, Coventry City, Ipswich Town e Hull City tentarão repetir esse desempenho. Inspirados pela permanência de Sunderland e Leeds, os três recém-promovidos terão a missão de provar que também podem acompanhar o nível de competitividade da atual Premier League.
Os números da última temporada deixam uma conclusão clara: a diferença entre os clubes ingleses parece menor em boa parte da tabela. A distância entre os grandes e os times considerados menores diminuiu, a classificação para a Europa ficou mais acessível e equipes recém-promovidas passaram a desafiar expectativas.
Resta saber se a temporada 2026-27 vai confirmar essa tendência ou se a Premier League voltará a apresentar uma hierarquia mais próxima do que era habitual. O que já está claro é que, cada vez mais, poucos jogos podem ser considerados fáceis no Campeonato Inglês.
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