Em setembro de 2024, Mamadou Sangaré recebeu sua primeira convocação para a seleção do Mali. Como manda a tradição, o meio-campista precisou encarar o ritual de iniciação: subir em uma cadeira e cantar diante dos companheiros.
Quando Yves Bissouma, capitão da seleção malinense na época, o apresentou ao grupo, resolveu fazer uma pergunta ao novato: em qual posição ele gostaria de jogar?
A resposta foi curta e ousada: “A sua.” A confiança chamou a atenção de Tom Saintfiet, então técnico do Mali. O treinador não apenas gostou da resposta, como enxergou no jovem um jogador consciente de suas próprias capacidades.
“Ele é uma pessoa aberta, inteligente e confiante. Ele sabe do que é capaz”, contou Saintfiet.
Pouco menos de dois anos depois, Sangaré não tomou a vaga de Bissouma na seleção — os dois chegaram a atuar juntos pelo Mali —, mas passou a ocupar outro espaço importante: o de principal representante da nova geração malinense na Premier League.
Aos 24 anos, o meio-campista deixou o Lens e assinou com o Brentford em uma negociação de 41 milhões de libras, segundo a Opta Analyst. O valor transforma Sangaré em uma das principais apostas do clube londrino para a temporada e mostra o tamanho da confiança depositada em um jogador que, até pouco tempo atrás, ainda era pouco conhecido fora do futebol austríaco e francês. E não foi uma aposta baseada apenas em potencial.
Sangaré chega à Inglaterra depois de uma temporada de destaque na França, na qual ajudou o Lens a terminar em segundo lugar na Ligue 1 e conquistar a Copa da França. O desempenho ainda rendeu ao malinense um lugar na seleção da competição e o Prêmio Marc-Vivien Foé, entregue ao melhor jogador africano da Ligue 1.
Ou seja: embora ainda seja pouco conhecido pelo torcedor da Premier League, Sangaré já chega ao Brentford com uma bagagem considerável.
Sangaré é muito mais do que um volante
Quem olhar apenas para os números defensivos pode imaginar que o Brentford contratou um típico camisa 6. Afinal, Sangaré se destacou justamente pela capacidade de recuperar a bola, vencer duelos e proteger a defesa. E os números comprovam isso.
Na última Ligue 1, o malinense registrou 8,01 recuperações de posse por 90 minutos, terceira maior média entre jogadores das cinco grandes ligas europeias que atuaram pelo menos 900 minutos. Apenas Elliot Anderson e Exequiel Palacios tiveram números melhores. Quando o recorte é feito apenas para as recuperações no terço central do campo, Sangaré teve 4,68 por 90 minutos, ficando atrás somente de Íñigo Ruiz de Galarreta.
Ele também terminou entre os principais jogadores das cinco grandes ligas em desarmes e interceptações combinados, com 7,7 por 90 minutos, além de registrar 3,33 desarmes por partida.
Mas é justamente aí que começa a ficar interessante. Para Saintfiet, limitar Sangaré à função de destruidor seria um erro.
“Se você fala de recuperação de bola e desarmes, então você olha para o Makélélé, o Gattuso, o verdadeiro camisa 6. Mas, para mim, ele não é realmente um número 6. Ele é diferente”, explicou.
“Ele é mais um número 8 do que um número 6 e pode até jogar como número 10. Suas qualidades multifuncionais são seus pontos fortes.”
A versatilidade talvez seja justamente uma das características mais interessantes de Sangaré. Ele consegue atuar mais recuado, proteger a defesa, avançar para pressionar o adversário e também participar da construção ofensiva. Não se trata, portanto, de um jogador cuja principal função é simplesmente recuperar a posse e entregar a bola ao companheiro mais próximo.
A análise da Opta reforça essa impressão. Sangaré registrou 3,4 conduções progressivas de pelo menos dez metros por 90 minutos na última Ligue 1 e completou 32 dos 62 dribles que tentou, com aproveitamento de 52%. Entre meio-campistas defensivos e centrais das cinco grandes ligas, ficou entre os dez melhores nesse quesito.
Quando tem a bola, portanto, Sangaré também consegue carregar o jogo para frente. E existe uma característica ainda mais interessante: sua capacidade de inverter o lado das jogadas.
O malinense tentou 21 inversões de jogo na Ligue 1 e acertou 18. Treze delas encontraram diretamente Matthieu Udol, lateral-esquerdo do Lens. A conexão não era casual. Udol terminou a temporada entre os principais defensores das cinco grandes ligas em cruzamentos certos, chances criadas e expectativa de assistência.
Na prática, Sangaré era capaz de recuperar a bola, resistir à pressão, levantar a cabeça e rapidamente mudar o ponto de ataque. É uma característica que ajuda a explicar por que ele é visto como um jogador capaz de contribuir dos dois lados do jogo.
O Brentford pode ter encontrado o encaixe perfeito para a disputa da Premier League

Se existe uma preocupação natural em qualquer transferência para a Premier League, é saber como o jogador irá lidar com a mudança de nível. No caso de Sangaré, entretanto, existe um fator que pode facilitar bastante sua adaptação: o Brentford não joga de maneira tão diferente do Lens.
A análise da Opta mostra uma semelhança curiosa entre as duas equipes. O Lens teve média de 51,2% de posse de bola na Ligue 1, enquanto o Brentford ficou em 47,6% na Premier League. Mais importante do que isso, os dois foram times bastante diretos.
O Lens avançou a bola em jogo aberto a uma velocidade de 1,94 metro por segundo. O Brentford ficou em 1,93 m/s. As duas equipes também estiveram entre as que mais utilizaram contra-ataques nas cinco grandes ligas europeias.
Isso significa que Sangaré não está chegando a um clube que exigirá uma mudança completa de comportamento. O futebol praticado pelos Bees possui elementos que já fizeram parte da melhor temporada de sua carreira.
E existe ainda uma necessidade clara no elenco. Com a saída de Jordan Henderson, o Brentford abriu espaço justamente no meio-campo. Sangaré aparece como uma das principais opções para ocupar esse lugar ao lado de Yehor Yarmolyuk e Mikkel Damsgaard.
O encaixe pode ser ainda mais interessante porque o Brentford foi uma das equipes que mais passou tempo em situações de recuperação da posse e contra-ataque na última Premier League. O time frequentemente precisa lidar com grandes espaços depois que recupera a bola ou a perde, e Sangaré chega justamente com a capacidade física e defensiva para cobrir esse tipo de cenário.
O malinense e Adrien Thomasson, aliás, foram dois dos apenas quatro jogadores das cinco grandes ligas europeias que registraram pelo menos 50 recuperações de bola em zonas altas na última temporada. Sangaré terminou com 50.
Isso é importante porque mostra que ele não é apenas um volante que protege a própria área. Ele também consegue recuperar a bola já próximo do gol adversário e manter a pressão.
Na última temporada, o Lens teve média de 9,5 recuperações de posse em zonas altas por partida, quarta maior marca entre os clubes das cinco principais ligas europeias. Sangaré foi uma peça fundamental desse comportamento.
É justamente o tipo de característica que pode funcionar no Brentford: recuperar a bola, acelerar a jogada e aproveitar o adversário desorganizado.
O chute de longe pode ser outra arma
Existe ainda uma característica do jogo de Sangaré que pode fazer diferença na Inglaterra: a finalização de média e longa distância. Na última temporada da Ligue 1, apenas dois jogadores tentaram mais chutes de fora da área do que o meio-campista do Lens. É uma arma que ele ainda pode desenvolver, mas os primeiros sinais no Brentford já foram positivos.
Na pré-temporada, Sangaré marcou seu primeiro gol pelo clube justamente em uma finalização de longa distância, na goleada por 7 a 0 sobre o Eintracht Frankfurt. Para Saintfiet, o jogador poderia marcar ainda mais gols se fosse um pouco mais agressivo nesse aspecto.
“Às vezes, ele é um jogador de equipe demais. Ele quer dar a oportunidade para outro jogador e passa a bola quando poderia finalizar. Se conseguir marcar três, quatro ou cinco gols por temporada, será ainda melhor. Acho que ele tem essa capacidade.” explicou.
Os números ofensivos também ajudam a explicar essa visão. Sangaré terminou 2025/26 com três gols e quatro assistências pelo Lens, além de ter participado de 31 sequências que terminaram em uma segunda chance criada — a chamada “assistência para a assistência”. Entre os meio-campistas da Ligue 1, apenas quatro tiveram média superior à dele em participações em sequências ofensivas que terminaram em finalização.
Ou seja, talvez o maior potencial de Sangaré esteja justamente em não precisar escolher entre ser um jogador defensivo ou ofensivo. Ele pode contribuir em ambos os momentos.
Do futebol austríaco, destaque na França e desembarque na Premier League
A trajetória recente também ajuda a explicar por que o Brentford decidiu investir tanto. Antes de chegar ao Lens, Sangaré atuava pelo Rapid Viena, na Áustria. A mudança para a França representava um salto de nível, mas o malinense rapidamente se transformou em uma das peças importantes da equipe.
Em 2025/26, disputou 29 partidas pela Ligue 1, marcou três gols e deu quatro assistências. Também perdeu parte da temporada por estar com Mali na Copa Africana de Nações, na qual a seleção chegou às quartas de final. E existe um dado que ajuda a dimensionar ainda mais sua temporada: Sangaré foi eleito o melhor jogador africano da Ligue 1.
A conquista do Prêmio Marc-Vivien Foé colocou o malinense à frente de outros nomes importantes do futebol africano que atuavam na França. Foi assim Sangaré consolidou-se como um dos principais jogadores de sua geração no país.
A temporada ainda teve um cartão de visitas particularmente forte, já que, em maio, o Lens enfrentou o PSG e perdeu por 2 a 0 — resultado que confirmou o título francês para o clube parisiense. Sangaré, entretanto, foi um dos destaques da partida.
O meio-campista acertou 12 passes para o terço final, o dobro do segundo colocado no jogo, criou três chances e recuperou a posse 13 vezes — sua maior marca em uma partida da Ligue 1. Também venceu sete duelos e realizou quatro desarmes.
É um exemplo importante porque aconteceu justamente contra o melhor time da França e, naquele momento, campeão europeu. Sangaré conseguiu mostrar que suas características não desapareciam quando o nível do adversário aumentava.
O Brentford pode não ser o destino final
A história de Sangaré na Inglaterra está apenas começando, mas existe uma sensação de que o Brentford pode representar apenas mais uma etapa de uma carreira ainda maior. O clube londrino terminou a última Premier League na nona colocação, sua melhor posição conjunta na história da competição, e construiu uma reputação justamente pela capacidade de encontrar jogadores antes que eles se tornem nomes conhecidos no mercado europeu.
Sangaré chega dentro desse perfil. Aos 24 anos, já possui experiência internacional, disputou uma das principais ligas da Europa, foi eleito o melhor jogador africano da Ligue 1 e agora terá pela frente o desafio de provar que consegue transportar suas características para a Premier League.
A escolha pelo Brentford também parece ter sido consciente. Segundo Saintfiet, clubes maiores da Inglaterra já haviam demonstrado interesse no malinense, mas o jogador optou por um projeto no qual terá espaço para continuar crescendo.
“Brentford é um bom passo. Eles sempre mostraram que têm olho para jogadores talentosos que talvez sejam menos conhecidos na Inglaterra. Mas, conhecendo Mamadou Sangare, Brentford não é seu destino final. Ele pode chegar ao topo na Inglaterra.” afirmou o ex-técnico do Mali.
Pode parecer uma previsão ousada. Mas, olhando para os números, existe uma lógica por trás dela. Sangaré não chega ao Brentford apenas como uma aposta para o futuro. Ele chega à Premier League depois de uma temporada em que foi um dos melhores recuperadores de bola das cinco grandes ligas, mostrou qualidade para progredir com a posse, criou oportunidades, participou da construção ofensiva e ainda recebeu o prêmio de melhor jogador africano da Ligue 1.
Agora, resta descobrir se toda essa combinação também funciona no futebol inglês. E, se funcionar, o Brentford pode ter encontrado não apenas seu novo volante, mas mais um jogador capaz de transformar uma boa passagem pelo clube em uma futura transferência para um dos gigantes da Europa.
Créditos da foto de capa: Eddie Keogh/Getty Images



