Reconstrução institucional
O Vasco vem passando por um processo doloroso de crise política e administrativa, que afetou diretamente o desempenho do time dentro das quatro linhas. De 2013 até 2026, foram três rebaixamentos no Campeonato Brasileiro, quatro temporadas na Série B e, nas vezes em que conseguiu a manutenção na primeira divisão, somente em uma temporada ficou acima da metade da tabela.
O último título conquistado pela equipe cruzmaltina foi o Campeonato Carioca de 2016, enquanto o último em âmbito nacional foi a Copa do Brasil, em 2011. O clube, que tem um histórico vencedor por toda a sua história, uma das maiores torcidas do Brasil, além de ser uma das mais exigentes e apaixonadas, perdeu o costume de levantar taças e de brigar diretamente por campeonatos. Ao mesmo tempo, o clube viu seus rivais do Rio de Janeiro levantando troféus nacionais e continentais: o Flamengo se reconstruiu e conquistou três Brasileirões, três Copas do Brasil, além de se tornar o maior campeão da Copa Libertadores dentro do país, ganhando mais três e se tornando tetracampeão; o Fluminense também superou uma forte crise financeira e voltou a ser competitivo, chegando a conquistar a primeira Libertadores em sua história; e o Botafogo também voltou a viver bons momentos, conquistando, em 2024, a dobradinha do Brasileiro e da maior competição continental da América do Sul.
Conquistar a Copa Sul-Americana é importante para o futuro do Vasco. Além do ganho financeiro, com dinheiro entrando no caixa do clube a cada vitória conquistada, fase alcançada e premiação do torneio, o clube precisa voltar a se acostumar com decisões e a ser campeão novamente, reconquistando a confiança dos jogadores e da torcida vascaína. A Copa será um laboratório para que o elenco volte a se acostumar com a catimba em jogos sul-americanos, estádios e ambientes hostis e clima de alta pressão, fazendo com que os jogadores criem “casca”, assim podendo fazer com que os frutos do torneio se expandam para as competições nacionais.
Vasco pode chegar ao seu limite
Apesar do bônus que seria a conquista da Copa Sul-Americana, a força total do Vasco na competição pode ser prejudicial ao clube. O calendário do futebol brasileiro é apertado e, na temporada atual, ainda mais, com a paralisação dos campeonatos por conta da Copa do Mundo. Ao jogar as partidas da Sul-Americana com força máxima, o clube sofrerá com viagens desgastantes e pode correr sério risco de lesões, com os jogadores não dando conta do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil.
Renato Gaúcho sabe que não pode entrar com força total nas três competições em que a equipe está viva e já mandou recados para os torcedores durante as coletivas, afirmando sobre a falta de profundidade do elenco. Mesmo tendo jogadores de qualidade entre os onze iniciais, o time perde o ímpeto ao recorrer ao banco de reservas, não conseguindo manter o nível das peças.
O Vasco precisa reforçar o plantel durante as janelas do meio do ano, para que ofereça mais peças ao treinador. Em caso de perdas por lesões, elas podem expor a equipe a um fim de ano trágico, sem títulos e, pelo andamento atual no Campeonato Brasileiro, podendo ser rebaixada para a segunda divisão.
Equilíbrio para o andamento da temporada
O grande desafio do Vasco para o ano será conter as expectativas da torcida. Mesmo que passe em branco mais um ano, a diretoria do Vasco precisa entender que o clube está pavimentando o caminho para voltar a ser uma equipe competitiva. Tratar a Sul-Americana como prioridade pode atrapalhar o planejamento do clube, que busca fazer uma campanha sólida no Campeonato Brasileiro. Os torcedores cruzmaltinos, movidos pela paixão e sede da conquista de títulos, tratam a Copa como um torneio acessível, ficando revoltados pelas decisões e falas de Renato Gaúcho sobre o campeonato. Cabe ao clube acreditar no projeto do treinador, dar respaldo a ele e agir com a razão.
A Sul-Americana deve ser encarada como uma oportunidade de amadurecimento para o time, não como uma obrigatoriedade. Renato pode usar o torneio para testar formações e dar oportunidade a novos jogadores, diminuindo o desgaste e sem perder a competitividade.
A linha que separa a temporada entre o sucesso e o fracasso é tênue e, mesmo que a Copa Sul-Americana possa ser um divisor de águas para o clube, o Vasco não pode acelerar o processo de reconstrução em detrimento de uma campanha sólida no Brasileirão, buscando ficar acima da metade da tabela.
Créditos da foto de capa: Alexandre Durão/Zimel Press/Folhapress



