Vitória x Botafogo, Brasileirão 2026. Foto: Márcio José/AGIF.
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Vitória e sua força em casa; até onde o Barradão pode levar a equipe?

Existe uma diferença enorme entre o Vitória que joga no Barradão e aquele que deixa Salvador. E, depois de 23 rodadas do Campeonato Brasileiro, já não dá mais para tratar isso como uma simples coincidência. A vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo, no último domingo (16), reforçou uma característica que acompanha o time de Jair Ventura durante toda a temporada: o Leão se transforma diante da própria torcida.

O resultado colocou o Rubro-Negro Baiano com 29 pontos na tabela, sendo impressionantes 25 deles conquistados dentro de casa.

São oito vitórias, um empate e apenas duas derrotas em 11 partidas no Barradão, com 75,8% de aproveitamento. É o melhor índice entre os mandantes da Série A. Athletico-PR e Fluminense até somam mais pontos em casa, 27 cada, mas disputaram uma partida a mais.

E talvez o mais impressionante seja o contraste: fora de Salvador, o Vitória ainda não venceu no Brasileirão. São quatro empates e sete derrotas em 11 jogos, com apenas 11,1% de aproveitamento.

A pergunta, portanto, deixa de ser se o Barradão é importante para o Vitória — pois ele claramente é. A questão agora é: até onde essa força pode levar o Leão?

O Barradão virou uma arma competitiva

Vitória x Botafogo, Brasileirão 2026. Foto: Foto: Walmir Cirne/AGIF
Vitória x Botafogo, Brasileirão 2026. Foto: Foto: Walmir Cirne/AGIF

 

O retrospecto do Vitória em casa ajuda a explicar por que a equipe conseguiu se manter longe da zona de rebaixamento mesmo apresentando tantos problemas como visitante. No Brasileirão, o Leão venceu Remo, Atlético-MG, Mirassol, São Paulo, Coritiba, Internacional, Vasco e Botafogo. As únicas derrotas foram para Flamengo e Palmeiras, enquanto o Corinthians conseguiu arrancar um empate sem gols.

Não são apenas adversários da parte de baixo da tabela. O Vitória já utilizou o Barradão para derrotar equipes que chegaram ao campeonato com ambições muito maiores. Foi assim contra Atlético-MG, São Paulo e Internacional. Também foi no estádio que o time conseguiu superar o Flamengo em outro momento importante da temporada, pela Copa do Brasil, em uma classificação que marcou um dos grandes momentos do clube em 2026.

Há, portanto, uma combinação de fatores. O time parece jogar com mais confiança, a torcida empurra, a pressão sobre o adversário aumenta e a própria postura de Jair Ventura muda dependendo do contexto.

Contra o Botafogo, por exemplo, o Vitória começou pressionando a saída de bola com quatro jogadores. Mesmo tendo problemas para controlar o meio-campo nos primeiros minutos, o time conseguiu recuperar terreno e passou a encontrar espaços conforme a partida avançava.

É justamente aí que aparece uma das principais características desse Vitória: ele não precisa dominar todos os minutos para ser competitivo. Quando joga no Barradão, a equipe parece saber que terá alguma oportunidade para decidir o jogo.

Defesa sólida e um time que sabe sofrer

Vitória x Botafogo, Brasileirão 2026. Foto: Victor Ferreira/EC Vitória.
Vitória x Botafogo, Brasileirão 2026. Foto: Victor Ferreira/EC Vitória.

 

A vitória sobre o Botafogo também mostrou outro elemento importante: a força do Vitória em casa não está apenas na atmosfera criada pela torcida. Existe uma estrutura defensiva bastante consistente.

O Rubro-Negro sofreu somente sete gols em 11 partidas como mandante no Brasileirão. E quatro deles aconteceram na goleada por 4 a 0 para o Palmeiras, em uma partida atípica na qual o Vitória teve os dois zagueiros expulsos ainda no primeiro tempo. Nos outros dez jogos, portanto, foram apenas três gols sofridos. Contra o Botafogo, essa capacidade de resistir voltou a aparecer.

O Vitória teve 18 finalizações e poderia ter resolvido a partida muito antes, mas pecou demais no acabamento. Foram apenas quatro chutes no alvo. O Botafogo, por outro lado, teve oportunidades para buscar o empate, mas encontrou Lucas Arcanjo e uma defesa que conseguiu proteger a vantagem.

Esse é um ponto que merece atenção: o Vitória não necessariamente precisa jogar brilhantemente para ganhar no Barradão. Pode desperdiçar chances, passar por momentos de pressão e ainda assim sair vencedor. Foi exatamente o que aconteceu contra o Botafogo. E isso ajuda a entender por que o estádio virou uma espécie de zona de conforto para o time.

Mas o Barradão pode sustentar uma campanha maior?

Aqui está a parte mais interessante da discussão. A força dentro de casa já foi suficiente para colocar o Vitória em uma posição relativamente confortável. O time terminou a 23ª rodada com 29 pontos, seis acima da zona de rebaixamento, e agora ocupa a 12ª colocação.

Só que existe um limite óbvio para depender exclusivamente do fator casa. O Vitória ainda terá sete partidas como visitante no Brasileirão. E, até agora, não conseguiu vencer nenhuma.

A situação fica ainda mais preocupante porque o calendário também reserva compromissos importantes longe de Salvador. Depois do Ba-Vi, o Vitória terá o Vasco fora de casa pela Copa do Brasil e, posteriormente, visitará o Atlético-MG pelo Campeonato Brasileiro. Ou seja: se o time quiser transformar uma boa campanha de permanência em algo maior, precisará encontrar uma maneira de transportar parte da força do Barradão para outros estádios.

Isso não significa necessariamente começar a vencer todos os jogos fora. Jair Ventura já chegou a fazer uma conta parecida anteriormente. Quando o Vitória ainda tinha uma campanha muito ruim como visitante, o treinador apontou que, se o time mantivesse a capacidade de vencer em casa e conseguisse ao menos empatar fora, poderia brigar por uma vaga na Libertadores.

A matemática continua fazendo sentido. O problema é que o Vitória está praticamente no extremo dessa equação: ganha em casa, mas perde demais fora.

O Barradão pode ser o teto ou o ponto de partida

O Vitória já descobriu sua principal arma para a temporada, o Barradão não é apenas o lugar onde o time joga melhor. É onde a equipe parece encontrar sua identidade com mais facilidade.

A vitória sobre o Botafogo mostrou novamente um time competitivo, organizado defensivamente e capaz de sobreviver aos próprios erros ofensivos. O problema é que a margem para erro diminui quando a equipe deixa Salvador. E isso coloca o restante do Campeonato Brasileiro em uma encruzilhada.

Se o Vitória mantiver esse aproveitamento dentro de casa, dificilmente será um time fácil de ser empurrado para a briga contra o rebaixamento. Pelo contrário: o Barradão pode continuar garantindo uma pontuação capaz de colocar o Leão na primeira metade da tabela.

Mas, para sonhar com algo realmente grande, será necessário mais. O próximo compromisso em casa, inclusive, é daqueles que carregam um peso especial: o Ba-Vi contra o Bahia, no próximo domingo (23). Uma vitória no clássico faria o Vitória chegar a 28 pontos conquistados como mandante e poderia colocá-lo na liderança em pontuação entre os donos da casa.

O Vitória já transformou o Barradão em uma fortaleza Agora, precisa descobrir se essa fortaleza será apenas o que vai mantê-lo longe da confusão ou se pode ser a base para algo muito maior. Porque, se Jair Ventura conseguir fazer o Vitória competir fora de casa com uma fração da força que demonstra em Salvador, o Leão pode começar a olhar para cima — e não apenas para baixo.

Créditos da foto de capa: Márcio José/AGIF