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Automobilismo Fórmula 1

Ferrari vive mais uma temporada inconsistente, mas quais são os motivos para isso?

A primeira metade da temporada 2026 de Fórmula 1 mostrou duas versões bastante diferentes da Ferrari. A equipe começou o campeonato tendo de lidar com uma Mercedes muito mais forte, mas aos poucos conseguiu reduzir a distância e transformar uma disputa que parecia desequilibrada em um cenário consideravelmente mais competitivo.

Essa é, em essência, a leitura feita por Fred Vasseur após o Grande Prêmio da Hungria. Para o chefe da Ferrari, os primeiros 11 GPs do ano podem ser separados em duas fases bastante claras. Na primeira, até a etapa da Espanha, a Mercedes esteve em outro nível. Vasseur afirma que a equipe alemã chegou a abrir aproximadamente 100 pontos de vantagem sobre a Ferrari em um intervalo de quatro ou cinco corridas. A diferença não estava apenas na classificação do campeonato: a Mercedes conseguia transformar sua superioridade em resultados de forma consistente.

Depois da Espanha, porém, a situação começou a mudar. A Ferrari passou a somar mais pontos do que a Mercedes nas quatro ou cinco corridas seguintes. Isso não significa que a equipe italiana tenha assumido o controle do campeonato, mas mostra que a distância entre as duas diminuiu. Os resultados ajudam a ilustrar essa transformação. Lewis Hamilton venceu em Barcelona pela Ferrari, enquanto Charles Leclerc conquistou a vitória em Silverstone. Mais importante do que as duas vitórias isoladamente é o fato de a Ferrari ter conseguido se colocar com maior frequência em condições de desafiar a Mercedes.

Ainda assim, Vasseur reconhece que parte dessa mudança também foi influenciada pelos problemas enfrentados pelos rivais. George Russell abandonou quando liderava no Canadá e recebeu uma punição de drive-through em Mônaco. Kimi Antonelli, por sua vez, sofreu uma falha mecânica quando ocupava a segunda posição em Silverstone.

Russell também foi vítima de um incidente em Spa-Francorchamps e marcou apenas seis pontos na Hungria. Portanto, embora a Ferrari tenha efetivamente melhorado, a evolução da disputa não aconteceu em um vácuo: a Mercedes também teve de lidar com uma sequência de dificuldades.

Ferrari evoluiu, mas ainda precisa transformar velocidade em execução

A melhora da Ferrari aparece de maneira particularmente clara quando se observa a classificação. Até Mônaco, a equipe tinha uma desvantagem média de 0,442 segundo em relação à pole position. A partir de Barcelona, essa diferença caiu para apenas 0,204 segundo. É uma mudança relevante. A Ferrari passou a estar mais próxima da frente justamente no período em que começou a pontuar melhor em relação à Mercedes. Isso sugere que a equipe conseguiu extrair mais desempenho do carro ao longo da temporada.

Mas Vasseur não considera que o trabalho esteja concluído. Para ele, o principal ponto que precisa ser aperfeiçoado é a execução. O GP da Hungria serviu como um lembrete disso. A Ferrari também enfrentou um fim de semana complicado e mostrou que ter um carro mais competitivo não é suficiente. É preciso transformar o potencial disponível em resultados concretos durante as sessões competitivas e a corrida. Vasseur avalia que, de modo geral, a execução da Ferrari vinha sendo boa desde o começo do campeonato. O problema mais evidente está em outro lugar: a unidade de potência.

A equipe sabe que precisa encontrar desempenho adicional no motor, mas existe uma diferença importante entre desenvolver essa área e trabalhar no chassi. Segundo Vasseur, a evolução do motor possui uma inércia muito maior, ou seja, demanda mais tempo para que as mudanças sejam desenvolvidas e colocadas em prática. Por isso, o grande desafio da Ferrari é manter o ritmo de desenvolvimento enquanto trabalha simultaneamente para melhorar diferentes áreas do carro.

Os números mostram progresso, mas os rivais também avançaram

A Ferrari não foi a única equipe a evoluir. Esse é um detalhe importante na análise de Vasseur, porque reduzir a própria diferença para a pole não significa necessariamente ganhar posições na hierarquia. Os números da classificação mostram que a Red Bull também diminuiu sua desvantagem. O déficit da equipe caiu de 0,577 segundo até Mônaco para 0,466 segundo desde Barcelona. A McLaren apresentou uma evolução ainda maior nesse recorte. Sua diferença em relação à pole passou de 0,469 segundo para 0,383 segundo.

A comparação ajuda a explicar por que a Ferrari não pode simplesmente olhar para sua própria evolução e considerar o trabalho encerrado. O desenvolvimento acontece simultaneamente entre as principais equipes, e qualquer ganho obtido por uma delas pode ser parcialmente neutralizado por uma resposta da concorrência.

Vasseur vê a McLaren como um exemplo claro dessa dinâmica. A equipe adotou uma estratégia diferente da Ferrari, preferindo levar grandes pacotes de atualizações para determinados GPs. Quando essas novidades funcionam, o ganho de desempenho pode ser muito expressivo. A Ferrari escolheu outro caminho. Em vez de concentrar grandes pacotes em poucas etapas, a equipe tenta levar peças novas praticamente a cada corrida.

São filosofias diferentes, mas o objetivo é o mesmo: manter o carro evoluindo. Para Vasseur, a Ferrari precisa preservar o ritmo que apresentou até agora, porque ainda existe muito espaço para melhorar o chassi. E esse ponto pode ser determinante. Se a Ferrari conseguir continuar acrescentando desempenho ao carro enquanto também trabalha na unidade de potência, a segunda metade da temporada poderá apresentar uma equipe ainda mais próxima da Mercedes.

Hamilton acredita que a Ferrari ainda tem margem para crescer

Lewis Hamilton tem uma razão adicional para olhar com otimismo para a segunda metade do campeonato. Na avaliação do piloto, a Ferrari esteve perdendo aproximadamente três ou quatro décimos de segundo nas retas durante a primeira parte da temporada por causa da diferença de potência. A expectativa é que a equipe consiga trabalhar nessa área com as próximas atualizações.

Isso dá à Ferrari uma possibilidade interessante: se o carro já conseguiu reduzir sua diferença para a pole mesmo com uma desvantagem de potência apontada por Hamilton, existe a expectativa de que uma evolução da unidade de potência possa melhorar ainda mais seu desempenho.

O piloto também destacou o esforço contínuo da equipe no desenvolvimento. A Ferrari vem levando atualizações de forma recorrente, e Hamilton espera que mais novidades apareçam na segunda metade do ano. Sua avaliação é especialmente otimista porque ele acredita que essa parte da temporada costuma ser mais favorável ao seu próprio desempenho. Por isso, pretende aproveitar a pausa para se recuperar e voltar mais forte, mais preparado fisicamente e em melhores condições mentais.

A declaração de Hamilton também revela a importância do momento atual para a Ferrari. A equipe não precisa apenas encontrar mais velocidade; precisa aproveitar a evolução que já construiu e impedir que o trabalho feito pelos adversários volte a ampliar a diferença.

Leclerc vê a corrida pelo desenvolvimento como a chave

Charles Leclerc também coloca o desenvolvimento no centro da disputa pelo restante da temporada. Para o monegasco, as atualizações ganharam um peso ainda maior no campeonato atual porque são capazes de produzir mudanças significativas no desempenho dos carros. A evolução da McLaren na Hungria, segundo ele, foi uma demonstração clara disso.

A conclusão de Leclerc é direta: a Ferrari precisa continuar agressiva em seu programa de desenvolvimento. Essa talvez seja a principal mensagem deixada pela primeira metade da temporada. A Ferrari não começou 2026 no mesmo nível da Mercedes, mas conseguiu mudar a trajetória do campeonato ao longo das corridas. O problema é que a evolução não pode parar, porque as outras equipes também estão encontrando desempenho.

Vasseur vê espaço para melhorias no chassi e sabe que o motor ainda precisa avançar. Hamilton espera que as futuras atualizações de potência ajudem a diminuir ainda mais a diferença, enquanto Leclerc reforça que a Ferrari precisa continuar acelerando o desenvolvimento.

Por isso, a temporada pode ser entendida como duas fases até aqui: uma primeira em que a Mercedes estabeleceu uma vantagem clara e uma segunda na qual a Ferrari começou a responder.

O que acontecerá daqui para frente dependerá justamente de qual equipe conseguirá sustentar melhor esse processo. A Ferrari já mostrou que consegue diminuir a diferença. Agora, terá de provar que também consegue manter esse ritmo de evolução.

E, com Zandvoort no horizonte, essa será a próxima oportunidade para medir se a recuperação da Ferrari é apenas uma tendência momentânea ou se a equipe realmente está construindo uma segunda metade de temporada mais competitiva.

Foto: (Scuderia Ferrari)