O plano de Gianni Infantino para permitir a entrada de investidores privados em uma subsidiária comercial da Fifa pode provocar consequências importantes no futebol internacional. Porém, diante do calendário das próximas competições, o futebol feminino aparece como o setor mais exposto ao conflito entre a entidade e as federações continentais.
Na quinta-feira (30), as 55 associações que integram a Uefa aprovaram um boicote a todas as competições organizadas pela Fifa até que Infantino retire suas propostas. A decisão coloca em dúvida a participação das seleções europeias em torneios importantes e terá seu primeiro grande teste já no dia 5 de setembro, quando começa a Copa do Mundo Feminina Sub-20, na Polônia.
Para Anita Asante, ex-defensora da Inglaterra, as competições femininas podem ser as primeiras prejudicadas pelo impasse. Embora nenhuma seleção tenha confirmado a desistência do Mundial Sub-20 até o momento, a proximidade do torneio aumenta a pressão para que uma solução envolvendo o projeto de Infantino seja encontrada.
Calendário coloca plano de Infantino sob pressão
A Federação Polonesa de Futebol informou que ainda não recebeu qualquer aviso sobre possíveis abandonos. Dessa forma, os preparativos para a Copa do Mundo Feminina Sub-20 continuam normalmente. No entanto, a competição começará antes do prazo estabelecido por Infantino para que as federações aceitem seus planos, marcado para 19 de setembro. Ou seja, o Mundial disputado na Polônia pode se transformar no primeiro efeito prático da posição adotada pela Uefa.
Caso as associações mantenham a decisão, seleções europeias podem deixar de participar de uma competição que já está próxima de começar.
O problema não termina por aí. Em outubro, Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales disputarão partidas das Eliminatórias para a Copa do Mundo Feminina que será realizada no Brasil. No mesmo mês, o Marrocos receberá a Copa do Mundo Feminina Sub-17. Neste cenário, o calendário cria uma sequência de possíveis conflitos.
Asante ressaltou que uma jogadora não pode considerar garantida a oportunidade de participar de uma Copa do Mundo. Além disso, a proposta de Infantino pode afetar uma programação que já possui muitos compromissos caso o impasse continue.
A preocupação ganhou força porque outras confederações também se posicionaram contra o projeto. A Concacaf afirmou que suas 41 associações rejeitaram o plano apresentado por Infantino. Já a Confederação Asiática de Futebol declarou apoio às entidades da Europa, América do Norte, América Central e Caribe.
Carlos Cordeiro, conselheiro sênior de Infantino, também deixou seu cargo por não concordar com o projeto. Para o dirigente, o acordo seria negativo e comprometeria o futuro do futebol. Dessa forma, a resistência deixou de estar limitada à Uefa e passou a envolver diferentes regiões e até nomes ligados à própria estrutura da Fifa.
Apesar da pressão, Infantino e a Fifa mantêm suas posições. Em resposta ao boicote, a entidade afirmou que ninguém está vendendo o futebol e alegou que informações incorretas divulgadas pela imprensa prejudicaram o processo de consulta.
Ausência do futebol feminino no projeto de Infantino aumenta preocupação
A proposta de Infantino prevê a criação da Fifa Forward Enterprise, subsidiária que ficaria responsável pela administração comercial dos principais eventos da entidade, incluindo as Copas do Mundo. Investidores externos poderiam adquirir participações minoritárias na empresa, mas não teriam o controle das decisões. Caso o projeto seja aprovado, a Thrive Eternal deverá liderar o grupo de investidores. A empresa norte-americana de capital de risco foi fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A Fifa acredita que a nova estrutura pode ampliar as receitas geradas por suas competições. Em um documento de 25 páginas produzido pelo banco JP Morgan, aparece uma estimativa de repasse de 24 milhões de euros para cada associação no ciclo entre 2035 e 2039. Para alcançar esse valor, os torneios da entidade seriam ampliados. O material também apresenta ideias envolvendo novos negócios e remunerações baseadas em incentivos para atrair profissionais.
Além disso, a Copa do Mundo aparece como o evento esportivo mais assistido do planeta, enquanto a Fifa é considerada uma organização que ainda não aproveita totalmente seu potencial comercial.
Porém, o documento não menciona o futebol feminino. Este ponto ajuda a explicar a preocupação de Anita Asante e da Baronesa Campbell, ex-diretora de futebol feminino da Federação Inglesa. Embora Campbell reconheça a importância do investimento comercial para o crescimento do esporte, ela entende que os interesses financeiros não podem assumir o controle do jogo.
A situação se torna ainda mais delicada porque Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales devem organizar a Copa do Mundo Feminina de 2035. Sendo assim, uma proposta que apresenta projeções financeiras justamente para o ciclo que inclui essa competição, mas não aborda diretamente a modalidade feminina, naturalmente provoca dúvidas.
O fato é que o plano de Infantino abriu uma crise antes mesmo de ser colocado em prática. Enquanto a Fifa tenta convencer as federações de que a entrada dos investidores pode fortalecer suas competições, a resistência internacional ameaça o calendário. E, devido à proximidade dos próximos torneios, o futebol feminino corre o risco de sentir primeiro as consequências dessa disputa.
Créditos da foto de capa: Getty Images Sport.



