Liverpool encerrou a pré-temporada com uma vitória que valeu muito mais do que o placar de 2 a 0 sobre o Como. No último compromisso antes do início da temporada, os Reds encontraram respostas importantes para algumas dúvidas do elenco, confirmaram o potencial de um jovem defensor e deixaram claro que a adaptação ao estilo de Andoni Iraola está avançando.
A partida disputada em Anfield marcou a primeira vitória do treinador espanhol diante da torcida desde que assumiu o comando da equipe. Embora o resultado tenha sido obtido em um amistoso, a atuação foi suficiente para aumentar o entusiasmo dos torcedores, que começam a enxergar uma identidade mais clara no time.
Entre as principais histórias da partida, uma chamou a atenção acima de todas as outras: a estreia de Jérémy Jacquet. O defensor francês transformou apenas 45 minutos em campo em uma verdadeira carta de apresentação. Mas ele não foi o único a deixar uma boa impressão. O desempenho de Cody Gakpo, a utilização de Rio Ngumoha e a evolução física da equipe também ajudaram a construir um cenário mais otimista para o início da temporada.
Jacquet mostrou por que o Liverpool não entrou em desespero
Durante boa parte da janela de transferências, muitos torcedores do Liverpool questionaram a postura da diretoria em relação à defesa. Afinal, a saída de alguns jogadores e as dúvidas sobre a profundidade do elenco alimentaram a expectativa pela contratação de um novo zagueiro.
A chegada de Ronald Araújo, por empréstimo, ofereceu uma solução imediata. No entanto, o clube nunca demonstrou grande preocupação em buscar mais reforços para o setor.
A atuação de Jérémy Jacquet ajuda a explicar o motivo.
O francês chegou ao Liverpool depois de um acordo fechado com o Rennes no início do ano, mas precisou lidar com um problema no ombro que atrasou sua adaptação. A comissão técnica optou por conduzir o processo com cautela, evitando qualquer tipo de precipitação.
A espera parece ter valido a pena. Em apenas um tempo, Jacquet mostrou personalidade, qualidade na saída de bola e segurança nos duelos individuais. O gol marcado foi apenas um detalhe dentro de uma atuação muito mais completa.
O defensor demonstrou uma característica cada vez mais valorizada no futebol moderno: a capacidade de defender longe da própria área sem comprometer a organização da equipe.
Além da agressividade na marcação, chamou a atenção a facilidade para se recuperar depois de perder a posse de bola. Essa combinação transforma o francês em um perfil muito próximo daquele procurado pelos principais clubes europeus.
Existe, ainda, um fator que pode acelerar sua evolução: a oportunidade de atuar ao lado de Virgil van Dijk. Poucos jovens defensores têm o privilégio de aprender diariamente com um dos maiores zagueiros da última década.
Cody Gakpo continua vivendo dias de incerteza
Se Jacquet deixou o gramado cercado por elogios, Cody Gakpo terminou a partida alimentando ainda mais as especulações sobre o próprio futuro.
O atacante abriu o placar com um belo chute de esquerda e ainda participou da jogada que terminou com o gol do defensor francês. O desempenho foi convincente, mas a impressão deixada pelo jogador durante a partida foi diferente.
Faltou entusiasmo. As informações da imprensa europeia indicam que Gakpo já possui um acordo com o Tottenham e aguarda apenas um entendimento entre os clubes para concluir a transferência.
A situação é curiosa. O Liverpool não trata o atacante como um jogador inegociável. Ao mesmo tempo, também não pretende facilitar a negociação.
A diretoria estabeleceu uma pedida próxima dos 80 milhões de dólares, valor considerado adequado para um atleta que atravessou a temporada menos produtiva desde que chegou a Anfield.
No último ano, o holandês participou diretamente de apenas 15 gols em 52 partidas. O rendimento ficou abaixo das expectativas, principalmente depois da saída de Luis Díaz.
A boa atuação diante do Como, no entanto, pode aumentar o interesse dos possíveis compradores.
Ngumoha ganhou mais espaço
A saída de Mohamed Salah deixou uma lacuna gigantesca no ataque do Liverpool.
Substituir um dos maiores jogadores da história do clube nunca seria uma tarefa simples. A surpresa está no fato de que a diretoria parece não ter pressa para buscar um substituto direto no mercado.
Victor Muñoz foi contratado junto ao Osasuna, enquanto Bradley Barcola aparece como um dos principais alvos da equipe. No entanto, nenhum dos dois representa uma reposição imediata para o egípcio.
Enquanto isso, Andoni Iraola começa a testar alternativas dentro do próprio elenco. Rio Ngumoha foi uma das principais apostas durante a pré-temporada. O jovem atacante, que normalmente atua pela esquerda, apareceu aberto pela direita contra o Como.
A mudança não aconteceu por acaso.
Iraola acredita que os pontas precisam ter capacidade para atuar nos dois lados do campo. O treinador pretende aumentar a mobilidade ofensiva da equipe e reduzir a previsibilidade das jogadas.
Ngumoha respondeu positivamente ao desafio. O jovem mostrou qualidade técnica, inteligência para atacar os espaços e personalidade para participar das jogadas ofensivas. Ainda assim, existe uma preocupação compreensível.
Substituir Mohamed Salah é uma responsabilidade gigantesca. Talvez seja cedo para depositar tantas expectativas sobre um jogador que ainda está dando os primeiros passos no futebol profissional.
O talento está presente. O problema é que a pressão também estará.
Liverpool está começando a ter Iraola em seu sangue
Existe um detalhe que não pode ser ignorado quando o assunto é o trabalho de Andoni Iraola.
O treinador exige uma intensidade física muito acima da média.
Discípulo das ideias de Marcelo Bielsa, o espanhol aposta em uma pressão constante, marcação agressiva e muita movimentação sem a bola. É um modelo extremamente exigente e que depende diretamente da condição física dos jogadores.
Depois da derrota para o Monaco, o próprio treinador demonstrou preocupação com o desgaste da equipe.
Naquele momento, o Liverpool havia desperdiçado uma vantagem de dois gols pela segunda partida consecutiva, e Iraola admitiu que o elenco ainda não estava preparado para sustentar o nível de intensidade desejado durante os 90 minutos.
Contra o Como, o cenário foi diferente. Diversos jogadores permaneceram em campo durante praticamente toda a partida e conseguiram manter o ritmo até o apito final. A evolução foi suficiente para arrancar elogios do treinador.
Ainda assim, o espanhol deixou claro que o trabalho está longe de ser concluído. A declaração faz sentido.
Quem acompanha a carreira de Iraola sabe que suas equipes precisam de tempo para assimilar os conceitos propostos. No Bournemouth, por exemplo, o treinador não venceu nenhuma das nove primeiras partidas da Premier League.
A comparação serve como um alerta para os torcedores mais ansiosos.
Liverpool tem motivos para acreditar, mas precisa de paciência
A vitória sobre o Como não transforma automaticamente o Liverpool em candidato ao título da Premier League. Por outro lado, o amistoso deixou sinais bastante positivos.
Jérémy Jacquet mostrou que pode ser uma solução para a defesa. Cody Gakpo lembrou que ainda possui qualidade para decidir partidas importantes. Rio Ngumoha demonstrou potencial para assumir mais responsabilidades. E o elenco apresentou uma evolução física importante.
Nem todas as dúvidas foram respondidas. O futuro de Gakpo no Liverpool continua indefinido. O substituto de Salah ainda não foi encontrado. E a adaptação ao modelo de jogo de Iraola exigirá tempo. Mas existe uma certeza em Anfield.
Se a pré-temporada serviu para alguma coisa, foi para mostrar que o Liverpool possui peças suficientes para construir um projeto interessante.
Agora, resta saber quanto tempo será necessário para que o famoso “Iraola-ball” deixe de ser uma promessa e se transforme em realidade no Liverpool.
Foto: Peter Byrne/PA Images/Getty Images



