Artur Jorge, Cruzeiro
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Cruzeiro: se equipe fracassar na Copa do Brasil, é hora de pensar em reformular seu núcleo?

A eliminação do Cruzeiro para o Flamengo nas oitavas de final da Libertadores representou mais do que o fim de uma campanha continental. O torneio era apontado como o principal objetivo da temporada, e a derrota por 2 a 1 no Maracanã deixou uma sensação preocupante: em um dos jogos mais importantes do ano, a equipe esteve distante do nível necessário para competir com um adversário de alto investimento.

O placar, inclusive, não conta toda a história. O Flamengo venceu por 2 a 1, mas dominou amplamente o primeiro tempo e teve condições de construir uma vantagem maior. No acumulado dos 90 minutos disputados no Rio de Janeiro, o Cruzeiro conseguiu ter um período realmente positivo apenas no início da segunda etapa. Foi pouco para um time que precisava buscar uma classificação diante de um dos principais favoritos ao título.

A eliminação, por si só, não deveria provocar uma terra arrasada. O próprio Pedro Lourenço adotou um discurso equilibrado ao reconhecer a superioridade do Flamengo e reforçar a confiança no projeto e em Artur Jorge, que tem contrato até 2030. Mas existe uma questão que pode ganhar força caso o Cruzeiro também fracasse na Copa do Brasil: até que ponto o núcleo principal do elenco ainda deve ser considerado intocável para os próximos objetivos do clube?

Cruzeiro desapareceu no momento em que mais precisava competir

O cenário exigia um Cruzeiro praticamente perfeito no Maracanã. Depois do empate no Mineirão, a equipe precisava reduzir erros, competir intensamente e aproveitar as oportunidades que surgissem. O que aconteceu nos primeiros 45 minutos foi exatamente o contrário.

O Flamengo dominou o jogo desde o início. Atacou pelos lados, encontrou espaços pelo meio, finalizou de fora da área e infiltrou com facilidade. O Cruzeiro teve enorme dificuldade até mesmo para encontrar a bola, sendo empurrado para trás durante boa parte da primeira etapa.

O principal problema estava no meio-campo. A linha de frente pressionava sem organização, Gerson encontrava dificuldades para ocupar os espaços necessários, e Lucas Romero acabava exposto. O argentino cometeu erros técnicos, mas também precisou percorrer um campo excessivamente grande para tentar compensar os problemas coletivos.

Diante de um adversário com a qualidade do Flamengo, a conta não poderia fechar. O gol de Arrascaeta, aos 34 minutos, foi consequência de uma superioridade que já vinha sendo construída. O Cruzeiro poderia ter chegado ao intervalo em uma situação ainda pior.

Artur Jorge não promoveu grandes invenções na escalação. A escolha de William no lugar de Fagner foi a principal novidade, e os gols rubro-negros passaram pelo setor do lateral. Ainda assim, seria simplista transformar a eliminação em responsabilidade de um único jogador. O problema foi coletivo.

A reação durou pouco demais no Maracanã

O Cruzeiro voltou diferente para o segundo tempo. Por alguns minutos, enfim, apresentou uma versão mais próxima da equipe competitiva que construiu sua ascensão ao longo da temporada.

A marcação passou a funcionar de maneira mais coordenada, o time roubava bolas e os jogadores de criação começaram a aparecer. Gerson e Matheus Pereira participaram do lance que terminou no gol de empate, e a sensação era de que o confronto poderia mudar de rumo.

Mas o crescimento durou menos de dez minutos. O Flamengo retomou rapidamente o controle da partida e voltou a encontrar espaços. Samuel Lino recebeu de Pedro e marcou o segundo gol, encerrando antes do esperado a reação cruzeirense.

Depois disso, o Cruzeiro voltou a ter mais a bola em determinados momentos, mas não conseguiu transformar a posse em oportunidades realmente perigosas. A equipe ocupava o campo ofensivo, porém faltava qualidade para construir situações claras.

O problema também atingiu individualidades importantes. Gerson e Matheus Pereira, jogadores acostumados a assumir protagonismo, tiveram apenas o lampejo que resultou no gol cruzeirense. Jonathan Jesus foi uma das exceções em uma noite ruim coletivamente, embora tenha participado do erro da linha de impedimento no segundo gol.

Matheus Pereira reconheceu isso após a eliminação. O meia fez uma autocrítica e admitiu que precisa entregar mais nos jogos decisivos. Não se trata de colocar toda a responsabilidade sobre um jogador, mas a declaração chama atenção porque o Cruzeiro precisa que seus principais nomes apareçam justamente quando o nível de exigência aumenta.

O núcleo do Cruzeiro ainda responde nos jogos grandes?

Essa talvez seja a pergunta mais importante para o restante da temporada. O Cruzeiro possui um elenco competitivo, um treinador respaldado pela diretoria e ainda tem objetivos relevantes. A eliminação para o Flamengo não significa que o projeto fracassou.

Mas o futebol também exige avaliações constantes. Se o principal objetivo da temporada era a Libertadores, o Cruzeiro já não poderá conquistá-lo. Agora, a Copa do Brasil ganha um peso ainda maior, especialmente com o confronto diante do Atlético-MG nas quartas de final.

Uma eliminação no clássico seria outro duro golpe. E, dependendo da forma como ela acontecesse, seria natural que a discussão sobre uma reformulação ganhasse força. Não necessariamente uma mudança completa de elenco, mas uma análise mais profunda sobre quem realmente pode liderar o clube em momentos decisivos.

O Cruzeiro investiu para elevar seu patamar e tem jogadores de grande capacidade técnica. Só que, em uma temporada longa, talento não basta. É necessário manter desempenho físico, regularidade e poder de decisão quando as partidas passam a ser eliminatórias.

A fala de Matheus Pereira vai exatamente nesse sentido. O meia afirmou que se cobra para ser mais decisivo e reconheceu que precisa fazer mais. Para um jogador de seu nível técnico, essa autocrítica pode ser um ponto importante. O Cruzeiro precisará dele como protagonista daqui para frente.

Copa do Brasil pode definir o tom da próxima janela

O cenário atual, portanto, pede equilíbrio. Pedro Lourenço tem razão ao afirmar que uma derrota não significa que tudo esteja errado. O Cruzeiro tem um treinador valorizado pela diretoria e um grupo que continua vivo em competições importantes.

A equipe ocupa a quinta posição no Campeonato Brasileiro e ainda tem a Copa do Brasil como caminho para conquistar um título e também buscar uma vaga na próxima Libertadores. Para voltar ao torneio continental, o clube precisa terminar entre os cinco primeiros do Brasileirão ou chegar à final da competição nacional.

Por isso, a resposta à pergunta da pauta depende diretamente dos próximos meses. Se o Cruzeiro reagir, competir bem contra o Atlético-MG e voltar a ser protagonista, não haverá motivo para uma reformulação radical. A eliminação para o Flamengo poderá ser tratada como uma derrota diante de um adversário superior em um confronto específico.

Mas, se o time voltar a falhar nos jogos decisivos, especialmente na Copa do Brasil, a avaliação precisa ser mais dura. Não apenas sobre Artur Jorge, que segue respaldado, mas principalmente sobre o núcleo de jogadores que deveria ser responsável por conduzir o Cruzeiro nos maiores desafios.

O duelo contra o Flamengo deixou uma lição clara: o placar de 2 a 1 foi apertado, mas o desempenho mostrou uma diferença maior. O Cruzeiro não pode se prender ao resultado e ignorar os problemas apresentados no Maracanã.

Agora, o clássico contra o Atlético-MG representa uma oportunidade imediata de resposta. Mais do que seguir vivo na Copa do Brasil, o Cruzeiro precisa mostrar que sua base principal ainda tem capacidade de crescer sob pressão. Caso contrário, ao fim da temporada, a reformulação do núcleo poderá deixar de ser apenas uma possibilidade e se tornar uma necessidade.

Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro