Islam Makhachev já é, para muita gente, o melhor lutador peso por peso do MMA na atualidade. Depois de quebrar o recorde de Anderson Silva e alcançar sua 17ª vitória consecutiva no UFC, o russo começa a ocupar um espaço ainda mais especial na história do esporte: o de um campeão que não está apenas consolidando seu legado, mas também construindo um argumento real para entrar na discussão sobre o maior de todos os tempos.
E o mais curioso é que Makhachev parece disposto a fazer isso da maneira mais perigosa possível.
Depois da vitória sobre Ian Machado Garry no UFC 330, o campeão dos meio-médios poderia pensar em uma estratégia mais confortável para preservar o cinturão e administrar o legado. Afinal, quanto maior o currículo, maior também o risco de uma derrota atrapalhar a narrativa. No entanto, o plano do pupilo de Khabib Nurmagomedov parece ser justamente o contrário.
Makhachev quer continuar lutando.
E, mais importante ainda, quer enfrentar alguns dos nomes mais perigosos que surgiram na divisão. Carlos Prates, Michael Morales e Shavkat Rakhmonov aparecem como possíveis desafios para o campeão, formando uma espécie de fila nada amigável para quem acabou de chegar ao topo dos meio-médios.
Não é exatamente o tipo de agenda que alguém escolheria para passar uma temporada tranquila.
Makhachev já superou Anderson Silva e se aproxima de marca histórica
A vitória de Islam Makhachev no UFC 330 teve um peso especial para sua trajetória. Com o triunfo, o russo chegou a 17 vitórias consecutivas na organização e superou o antigo recorde de Anderson Silva.
A marca ajuda a colocar Makhachev ainda mais próximo dos grandes nomes da história do UFC. O russo já havia conquistado o cinturão dos leves e agora também se tornou campeão dos meio-médios, ampliando consideravelmente seu currículo. Mas a discussão sobre o GOAT do MMA não é tão simples.
Khabib Nurmagomedov, Georges St-Pierre, Jon Jones, Demetrious Johnson e Anderson Silva são alguns dos nomes que aparecem constantemente nesse debate. Cada um tem argumentos diferentes: invencibilidade, número de defesas, domínio sobre os adversários, conquistas em mais de uma categoria ou simplesmente uma aura que parece ter sido fabricada especialmente para documentários esportivos.
Makhachev, por sua vez, ainda tem uma particularidade. Ele continua no meio da construção de sua história.
Ao contrário de alguns dos outros nomes da discussão, o russo não está tentando administrar os últimos capítulos da carreira. Não está fazendo uma luta de despedida, planejando uma aposentadoria ou escolhendo cuidadosamente o momento de aparecer novamente no octógono.
Pelo contrário: ele olha para a nova geração e parece interessado em descobrir até onde consegue chegar.
Prates, Morales e Rakhmonov formam fila perigosa
A lista de possíveis adversários de Islam Makhachev nos meio-médios não é exatamente formada por lutadores que um campeão escolheria para aumentar sua sequência de vitórias sem grandes preocupações.
Carlos Prates vive grande fase e sofreu apenas uma derrota em suas últimas 15 lutas. O brasileiro se tornou um dos nomes mais temidos da divisão e tem poder de nocaute suficiente para mudar qualquer luta com um único golpe.
Michael Morales também surge como uma ameaça crescente. Aos 27 anos, o equatoriano segue invicto e combina tamanho físico, potência e uma evolução que chamou a atenção dentro do UFC. É o tipo de lutador que ainda está descobrindo seu teto, o que costuma ser uma informação especialmente ruim para quem precisa enfrentá-lo.
E há ainda Shavkat Rakhmonov.
O cazaque permanece invicto no MMA profissional e, quando está saudável, continua sendo considerado um dos lutadores mais completos e perigosos da categoria. Seu maior obstáculo recente, inclusive, tem sido o próprio corpo, já que problemas físicos atrasaram sua sequência rumo ao cinturão.
Juntos, Prates, Morales e Rakhmonov formam uma verdadeira zona de perigo para Makhachev.
Um brasileiro com poder de nocaute, um fenômeno invicto do Equador e um dos grapplers mais completos da divisão. Se o russo conseguir passar por todos eles, será difícil encontrar alguém que não aumente consideravelmente o volume da conversa sobre o seu lugar na história.
Makhachev não esconde que quer continuar construindo seu legado
Em declaração recente na Rússia, Makhachev falou sobre os próximos objetivos depois de quebrar o recorde de vitórias consecutivas no UFC.
O campeão reconheceu que ainda existem outras marcas históricas que podem ser perseguidas, mas também destacou que possui uma série de adversários perigosos à sua espera nos meio-médios. Segundo o russo, há pelo menos três grandes lutas que podem representar desafios extremamente difíceis.
E essa postura talvez seja um dos principais diferenciais em sua candidatura ao posto de GOAT.
Muitos campeões históricos encerraram suas carreiras depois de atingir o auge. Khabib, por exemplo, deixou o MMA invicto e praticamente não voltou a considerar uma luta depois da morte de seu pai e treinador, Abdulmanap Nurmagomedov.
Georges St-Pierre ficou cinco anos afastado do esporte antes de retornar, conquistar o cinturão dos médios contra Michael Bisping e encerrar definitivamente sua carreira.
Anderson Silva também passou anos convivendo com perguntas sobre aposentadoria, principalmente durante a fase final de sua trajetória.
Jon Jones continua sendo um dos principais nomes da discussão, especialmente por ter conquistado cinturões em duas categorias. Mas sua carreira também ficou marcada por longos períodos de ausência e por uma série de situações que impediram o confronto contra Tom Aspinall de acontecer.
Islam Makhachev, pelo menos neste momento, parece seguir em outra direção.
Busca pelo GOAT passa por aceitar os riscos
Existe uma diferença importante entre ter um grande currículo e continuar disposto a colocá-lo em risco.
Makhachev poderia simplesmente defender seu cinturão contra opções mais convenientes, fazer escolhas estratégicas e proteger sua posição no ranking histórico. Mas, se realmente enfrentar Prates, Morales e Rakhmonov, estará apostando tudo contra alguns dos nomes mais perigosos da nova geração.
E essa talvez seja a parte mais interessante de sua trajetória.
A derrota para Adriano Martins, em 2015, continua sendo a única mancha significativa no cartel do russo. Diferentemente de Khabib, que encerrou a carreira invicto, Makhachev já sabe como é perder dentro do octógono.
Mesmo assim, conseguiu reconstruir sua carreira e agora alcançou uma sequência histórica no UFC.
O próximo passo pode ser ainda maior.
Se vencer os principais desafios dos meio-médios e continuar acumulando defesas de cinturão, Islam Makhachev não precisará mais ser tratado apenas como o melhor peso por peso da atualidade. A discussão inevitavelmente passará para outro nível.
Ele pode deixar de ser apenas mais um nome na conversa.
Pode se tornar o nome. Por enquanto, porém, ainda existe muita gente perigosa pela frente. Carlos Prates, Michael Morales e Shavkat Rakhmonov representam três obstáculos capazes de interromper a sequência do campeão e mudar completamente o rumo da história.
Makhachev sabe disso. E, aparentemente, quer enfrentar todos.
Em um esporte no qual grandes campeões costumam pensar cuidadosamente no momento de sair de cena, Islam Makhachev parece interessado em continuar caminhando diretamente para o perigo. Pode ser uma estratégia arriscada, quase uma missão suicida dependendo de quem estiver do outro lado do octógono.
Mas, para alguém que quer ser lembrado como o GOAT, talvez seja exatamente esse o caminho. No fim das contas, não basta chegar ao topo. Para Makhachev, a ideia parece ser continuar lá enquanto a próxima geração inteira tenta derrubá-lo. E, pelo visto, ele quer toda essa fumaça.
(Foto: Getty Images)



