O Santos perdeu por 3 a 0 para o Palmeiras, na quarta-feira (26), no Nubank Parque, pelo jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil. O resultado deixa a classificação muito complicada, mas a atuação expôs problemas que vão além da ausência de Neymar. A postura escolhida por Cuca e, principalmente, uma substituição no intervalo ajudam a explicar por que o Santos praticamente deixou de competir depois de sofrer o primeiro gol.
Sem Neymar, preservado por questão física, Cuca montou um time para se proteger e tentar atacar nos espaços. A estratégia poderia funcionar, mas havia um problema: desde o início, o Santos passou a mensagem de que estava mais preocupado em não sofrer do que em competir.
Isso apareceu no comportamento da equipe. Sem a bola, o time esperava muito atrás. Com ela, tinha pouca gente à frente e dificuldade para construir. O Palmeiras percebeu rapidamente que não precisava tomar grandes cuidados para se lançar ao ataque.
Santos entrou em campo com postura de quem tinha medo
A escolhaescolha de Cuca não foi apenas tática. Ela também teve um efeito anímico. Ao montar uma equipe tão retraída, o Santos passou para os próprios jogadores a sensação de que não tinha condições de enfrentar o Palmeiras de igual para igual. E isso também chegou ao adversário.
O Palmeiras não precisou jogar com receio de deixar espaços nas costas ou de sofrer uma transição perigosa a qualquer momento. O Santos pouco pressionava, não conseguia incomodar a saída de bola e raramente tinha jogadores suficientes para ameaçar quando recuperava a posse.
Durante algum tempo, a estratégia funcionou porque o Palmeiras não havia encontrado o gol. O Santos até teve uma oportunidade com Igor Vinícius e conseguiu manter o jogo sob controle em alguns momentos.
Mas controle não significa necessariamente competitividade. Quando Flaco López abriu o placar, aos 33 minutos, o cenário mudou. O Santos precisava atacar. E foi justamente aí que a equipe mostrou que não tinha uma estrutura preparada para assumir o jogo. O segundo gol de Andreas Pereira, ainda no primeiro tempo, deixou a situação ainda mais complicada.
A troca de Rollheiser por Rony piorou o problema
No intervalo, com o Palmeiras vencendo por 2 a 0, Cuca colocou Rony no lugar de Rollheiser. A intenção era clara: aumentar a velocidade e colocar mais força no ataque. Só que o problema do Santos naquele momento não era apenas chegar mais rápido à frente. Era pensar o jogo.
Rollheiser não fazia uma grande partida, mas oferecia algo que faltava ao restante do time. Por ser canhoto, o argentino naturalmente busca mais o centro do campo, pode receber entre as linhas e deixa o corredor para o lateral. Isso cria dúvidas na marcação e permite diferentes caminhos para construir uma jogada.
Rony tem outra característica. Sua principal virtude é atacar espaços com velocidade. Em outro cenário, isso poderia ser extremamente útil. Naquele momento, porém, o Santos precisava de jogadores capazes de criar, combinar e encontrar soluções diante de uma defesa posicionada.
A troca também gerou um problema de encaixe. Rony passou a ocupar praticamente a mesma faixa que Igor Vinícius já utilizava pelo lado direito. Os dois são destros e passaram a oferecer soluções muito parecidas: receber aberto, buscar o fundo e cruzar.
Na prática, o Santos ficou previsível. Era como se tivesse dois jogadores disputando o mesmo espaço para executar praticamente a mesma função. Enquanto isso, perdeu Rollheiser, que oferecia uma movimentação diferente e poderia aproximar o ataque do meio-campo.
Mais jogadores ofensivos não significaram mais criação.
O Palmeiras passou a encontrar exatamente o espaço que queria
O Santos voltou para o segundo tempo precisando buscar o resultado, mas sem organização suficiente para fazer isso. A equipe avançava e deixava espaços na recomposição. O Palmeiras, que já tinha superioridade técnica, passou a encontrar ainda mais campo para atacar.
O terceiro gol de Flaco López, aos 15 minutos, praticamente encerrou qualquer possibilidade de reação. Depois disso, o Palmeiras ainda teve chances para ampliar. Giay, Maurício, Arias e Vitor Roque desperdiçaram oportunidades, e o Santos acabou escapando de uma derrota ainda mais pesada.
Por isso, seria simplista colocar o 3 a 0 apenas na conta da substituição. O problema já estava presente antes dela. A troca de Rollheiser apenas deixou mais evidente uma deficiência que o Santos já apresentava: a dificuldade para criar quando precisava tomar a iniciativa.
Neymar volta, mas não pode ser a solução para tudo
A história pode ser diferente na partida de volta, na próxima quarta-feira (2), às 21h30, na Vila Belmiro. Neymar estará de volta depois de ser preservado no gramado sintético. E sua presença muda bastante o potencial ofensivo do Santos. O camisa 10 tem qualidade para receber entre as linhas, acelerar a circulação da bola e encontrar soluções que poucos jogadores do elenco conseguem oferecer.
Mais do que isso, Neymar também muda a postura do adversário. O Palmeiras não poderá simplesmente se lançar ao ataque sem pensar no que acontecerá quando perder a bola. Mas o retorno do camisa 10 não resolve sozinho os problemas apresentados no primeiro jogo.
O Santos continuará precisando melhorar a saída de bola, aproximar seus setores e encontrar um equilíbrio entre atacar e se proteger. Principalmente, precisará entrar em campo com outra mentalidade.
Cuca precisa fazer o Santos acreditar
O Santos terá de vencer por quatro gols de diferença para avançar diretamente às semifinais. Uma vitória por três leva a decisão para os pênaltis. É uma missão enorme, mas o primeiro passo não passa apenas pela parte tática.
O Santos precisa acreditar que pode competir com o Palmeiras. No primeiro jogo, a equipe entrou em campo como se precisasse primeiro sobreviver para depois tentar jogar. Quando sofreu o gol, precisou mudar completamente sua postura e não encontrou respostas.
Na Vila, Neymar será uma arma importante, mas Cuca terá de construir um time que aproveite sua presença sem depender exclusivamente dela.
O maior erro contra o Palmeiras não foi simplesmente colocar Rony em campo. Foi acreditar que, naquele momento, o Santos precisava de mais velocidade quando, na verdade, precisava de mais jogadores capazes de pensar o jogo. Com Neymar de volta, o talento estará novamente em campo. Agora, Cuca precisa fazer o Santos jogar como um time que acredita que pode buscar a classificação — e não como uma equipe que já entra derrotada antes mesmo de começar.
Foto: Mauricio de Souza/AGIF



