O São Paulo encontrou no pênalti o caminho para transformar uma atuação ofensivamente pobre em uma vitória importante no Brasileirão. O 1 a 0 sobre o Internacional, no Morumbis, recolocou o time de Dorival Júnior nos trilhos depois da eliminação para o Boca Juniors na Copa Sul-Americana, mas também deixou uma constatação difícil de ignorar: o resultado foi muito melhor do que o desempenho apresentado durante boa parte dos 90 minutos. O Tricolor teve dificuldades para construir ataques, criou poucas oportunidades e terminou dependendo de uma jogada isolada para marcar o gol que decidiu a partida.
A vitória, portanto, precisa ser analisada em duas dimensões diferentes. Do ponto de vista da tabela, os três pontos oferecem uma resposta importante depois de uma semana turbulenta. Do ponto de vista do futebol apresentado, porém, o São Paulo ainda está longe de encontrar uma solução para um problema que começa a se repetir. Dorival modificou a escalação, alterou o desenho defensivo e aproximou Calleri e Luciano no ataque, mas as mudanças produziram mais estabilidade do que criatividade. A equipe melhorou em alguns setores, mas continuou encontrando enorme dificuldade para transformar posse e circulação em chances claras.
Dorival muda peças, mas encontra poucas soluções no ataque
A escalação já indicava que Dorival Júnior pretendia fazer uma espécie de correção de rota depois da eliminação diante do Boca Juniors. Sabino e Danielzinho, que tiveram atuações ruins no meio de semana, deixaram a equipe titular, dando espaço para Rafael Toloi e Djhordney. As alterações funcionaram de maneira relativamente positiva, sobretudo porque o São Paulo ganhou mais segurança na construção defensiva e apresentou jogadores capazes de oferecer respostas melhores em suas respectivas funções.
O principal ganho, no entanto, apareceu em um jogador que sequer havia participado anteriormente da sequência da equipe: Pedro Lima. Apresentado apenas dois dias antes da partida, o jovem já começou como titular e foi um dos poucos jogadores capazes de produzir algo diferente no ataque. Atuando pelo lado do campo, deu mais profundidade, conseguiu atacar espaços e participou de uma das jogadas mais perigosas do São Paulo. Sua capacidade de acelerar o jogo foi especialmente importante em uma equipe que, durante muitos momentos, circulou a bola sem conseguir desorganizar a defesa do Internacional.
A presença de Pedro Lima também expôs uma característica importante da partida. Quando o São Paulo conseguiu produzir algum desequilíbrio, quase sempre houve uma ação individual ou uma mudança de ritmo por trás dela. O time não construiu uma sequência consistente de ataques capazes de empurrar o Internacional para trás. A equipe encontrou caminhos pontuais, mas não um mecanismo ofensivo capaz de se repetir ao longo da partida.
A aproximação entre Calleri e Luciano ainda não resolve o problema
Dorival também tentou modificar a estrutura ofensiva. Artur e Luciano inverteram os lados, enquanto Calleri e o camisa 10 tiveram uma aproximação maior, formando algo próximo de uma dupla de ataque. A ideia tinha lógica: diante da dificuldade para criar, colocar dois jogadores mais próximos da área poderia aumentar a presença são-paulina no último terço e oferecer mais opções para quem chegasse com a bola pelos lados.
Na prática, no entanto, a aproximação ainda não foi suficiente. Calleri e Luciano participaram mais diretamente do setor ofensivo, mas não receberam um volume de bolas capaz de transformar a mudança tática em oportunidades reais de gol. O problema do São Paulo não estava apenas na quantidade de atacantes próximos à área, mas na dificuldade para fazer a bola chegar até eles em condições favoráveis.
Esse é talvez o principal ponto deixado pela partida. A equipe pode mudar nomes, posições e desenhos, mas continuará limitada enquanto não encontrar uma forma mais consistente de acelerar a circulação e criar superioridade nas zonas ofensivas. Contra o Internacional, o São Paulo teve uma jogada que sintetizou o que funcionou: Marcos Antônio encontrou espaço e executou uma cavadinha sobre a linha defensiva, criando o lance que originou o pênalti convertido por Calleri. Foi uma solução individual em meio a uma produção coletiva bastante limitada.
Marcos Antônio, aliás, esteve entre os jogadores que melhor compreenderam o que a partida exigia. Sua capacidade de encontrar espaços e jogar entre as linhas foi importante para um São Paulo que passou boa parte do jogo procurando uma maneira de quebrar a estrutura colorada. Mas o fato de o lance do gol ter surgido de uma ação tão específica também evidencia a dependência que o time ainda possui de momentos individuais para criar perigo.
O 5-3-2 trouxe segurança, mas também limitou o time
Sem a bola, Dorival utilizou uma estrutura que se aproximou de um 5-3-2, com Artur compondo a linha defensiva pelo lado esquerdo, Djhordney centralizado e Marcos Antônio ocupando o lado direito. A mudança ajudou a proteger o time e deu ao São Paulo uma estrutura mais compacta, especialmente diante de um adversário que buscava avançar pelos corredores.
O problema é que a mesma estrutura que ofereceu proteção não conseguiu produzir a mesma eficiência quando o São Paulo precisava atacar. Com muitos jogadores preocupados em preservar a organização, faltou presença entre as linhas e, principalmente, capacidade para transformar recuperação de bola em ataques rápidos. O Tricolor frequentemente recuperava a posse, mas não conseguia aproveitar o momento de desorganização do Internacional.
Isso explica parte da diferença entre os dois tempos. O São Paulo conseguiu competir melhor no início, encontrou seu gol e administrou a vantagem. Depois do intervalo, porém, o Internacional passou a controlar mais as ações. O domínio colorado não se transformou em grandes chances de gol, mas foi suficiente para retirar do São Paulo o controle territorial da partida.
E aqui aparece outro sinal de alerta para Dorival. Uma equipe que não consegue criar muitas oportunidades precisa, necessariamente, controlar melhor os momentos posteriores ao gol. Se não consegue ampliar, precisa pelo menos impedir que o adversário assuma completamente o comando do jogo. O São Paulo não fez nenhuma das duas coisas de maneira convincente.
Vitória importante, mas ainda sem resposta para um problema antigo
É justamente por isso que o resultado contra o Internacional pode ser interpretado de duas maneiras. Para a tabela, é uma vitória extremamente útil. Depois da eliminação na Sul-Americana, em uma partida que também deixou críticas sobre o rendimento da equipe, o São Paulo precisava de uma resposta rápida. Os três pontos reduzem a pressão imediata e permitem que Dorival trabalhe com um pouco mais de tranquilidade.
Mas uma vitória não elimina automaticamente os problemas que levaram o time até esse momento. O São Paulo voltou a ter dificuldades para criar, dependeu de um pênalti e passou boa parte do segundo tempo sem conseguir recuperar o controle da partida. O fato de o Internacional também não ter produzido chances claras impediu que essas limitações fossem transformadas em um problema maior no placar.
A partida, portanto, não representa necessariamente uma mudança de cenário. Ela mostra um São Paulo capaz de sobreviver a uma noite ruim e conquistar três pontos mesmo sem jogar bem. Isso também tem valor em um campeonato longo. O problema é quando sobreviver deixa de ser exceção e começa a se tornar uma característica.
A estreia de Pedro Lima aparece como um dos poucos elementos capazes de oferecer uma perspectiva diferente. O jovem mostrou que pode acrescentar velocidade e agressividade pelo lado do campo, algo que o São Paulo claramente necessitava. Toloi e Djhordney também responderam bem às oportunidades recebidas. São peças que podem ajudar Dorival a reconstruir a equipe.
Ainda assim, a principal tarefa do treinador permanece no setor ofensivo. O São Paulo precisa descobrir como transformar suas mudanças estruturais em produção ofensiva real. Contra o Internacional, conseguiu o resultado. Mas o futebol apresentado no Morumbis mostrou que, para voltar a competir em um nível mais alto, o Tricolor precisará fazer mais do que aproveitar a próxima oportunidade que aparecer.
(Foto: Marcello Zambrana/AGIF)



