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E agora, Messi? Os próximos passos da carreira do craque após a aposentadoria da seleção

Lionel Messi encerrou oficialmente sua história com a seleção argentina da maneira que provavelmente sempre imaginou. Diante de 85 mil pessoas no Monumental de Buenos Aires, o maior jogador da história recente do país vestiu pela última vez a camisa da Albiceleste, marcou um gol na vitória por 3 a 0 sobre Benin e deixou o campo sob aplausos, lágrimas e a sensação de que um dos capítulos mais importantes do futebol argentino havia chegado ao fim.

A despedida não foi apenas de um jogador. Foi o encerramento de uma era. Aos 39 anos, Messi termina sua trajetória com a seleção com 208 partidas e 126 gols pela Argentina, depois de uma carreira que passou por momentos de extrema frustração até chegar ao ponto mais alto possível. A Copa do Mundo de 2022, duas Copas América e uma série de recordes transformaram a relação entre jogador e seleção.

Mas, justamente por isso, sua aposentadoria pela seleção não representa necessariamente o afastamento de Messi do futebol. Pelo contrário. O que muda agora é a natureza de sua participação. Messi não precisa mais pensar em uma próxima convocação, em uma eliminatória ou em uma Copa América. Também não precisa mais administrar o desgaste de uma temporada de clubes pensando em como chegar ao próximo compromisso da seleção. Pela primeira vez em mais de duas décadas, sua carreira poderá ser planejada exclusivamente a partir do futebol de clubes e dos projetos que deseja construir fora das quatro linhas.

Inter Miami será o centro da próxima fase da carreira

A primeira consequência prática da aposentadoria internacional é bastante simples: Messi terá mais tempo para o Inter Miami. O argentino ainda possui contrato com o clube até o fim da temporada de 2028, embora o vínculo seja revisado ano a ano. Isso significa que existe a possibilidade de Messi permanecer até os 41 anos, sair antes disso ou até estender sua passagem pela MLS caso continue encontrando motivação para jogar.

A questão, portanto, não é simplesmente quanto tempo Messi ainda consegue atuar em alto nível. É quanto tempo ele ainda terá vontade de fazê-lo. A aposentadoria da seleção muda justamente esse cálculo.

Durante anos, o calendário internacional foi uma parte inevitável da rotina de Messi. Datas Fifa, eliminatórias, Copa América e Copa do Mundo significavam viagens, concentração, jogos de alta intensidade e uma carga física adicional. Agora, esse compromisso desaparece. Isso pode permitir que Messi administre melhor seus minutos e escolha com mais cuidado quando precisa acelerar sua preparação ou quando pode preservar o corpo.

Também existe uma questão estratégica para o Inter Miami. O clube não contratou Messi apenas para ter um grande jogador dentro de campo. A presença do argentino transformou a dimensão comercial e esportiva da franquia, e sua permanência ainda representa uma oportunidade para consolidar o projeto construído ao redor de sua chegada.

Messi já não precisa provar que consegue carregar uma seleção. O desafio agora é ajudar a construir um clube que continue relevante mesmo quando sua presença dentro de campo eventualmente terminar.

A “nova carreira” de dono de clube

A segunda etapa da carreira já começou fora das quatro linhas. Messi assumiu participações em clubes europeus de divisões inferiores, como UE Cornellà e CD Eldense, e também entrou no projeto do Deportivo LSM, no Uruguai, ao lado de Luis Suárez.

No caso do Eldense, por exemplo, existe uma ambição esportiva de longo prazo. O clube contratou Javi Calleja, ex-treinador do Villarreal, em uma tentativa de reorganizar o projeto e buscar objetivos maiores.

É um universo completamente diferente daquele que Messi conheceu como jogador. Dentro do campo, ele sempre teve controle direto sobre o resultado. Como proprietário, isso desaparece. Não é Messi quem vai marcar o gol, escolher a escalação ou decidir uma partida. Ele passa a depender de executivos, treinadores, jogadores e estruturas administrativas.

É justamente por isso que essa nova fase será um desafio diferente. Messi terá de descobrir se sua compreensão do futebol como jogador pode ser transformada em uma visão de gestão.

O futuro de Messi na Argentina não precisa passar pelo banco de reservas

Existe, naturalmente, uma pergunta que continuará acompanhando sua carreira: Messi será treinador da Argentina? A resposta mais provável, pelo menos considerando o que ele próprio já disse, é que esse não seja seu objetivo.

Messi afirmou em 2024 que não planejava se tornar treinador depois da aposentadoria. E existe uma razão compreensível para isso. Ser treinador significa lidar diariamente com pressão, resultados, imprensa, escolhas de elenco, conflitos internos e uma quantidade de responsabilidades que não necessariamente combinam com o perfil de alguém que passou a carreira concentrado exclusivamente em jogar.

Ao mesmo tempo, o futebol argentino dificilmente deixará de imaginar Messi ocupando algum papel na seleção. Isso acontece porque seu nome ultrapassou a condição de jogador.

Diego Maradona passou por esse caminho. Depois de construir seu legado como ídolo máximo do futebol argentino, assumiu a seleção entre 2008 e 2010. O resultado não foi o esperado, e sua passagem terminou após a eliminação para a Alemanha na Copa do Mundo de 2010.

A experiência de Maradona serve justamente como lembrete de que ser um dos maiores jogadores da história não significa automaticamente possuir o perfil necessário para comandar uma equipe.

Messi não precisa repetir esse caminho. Seu papel na Argentina pode assumir outras formas. Pode ser institucional, como embaixador ou representante. Pode envolver categorias de base, projetos de desenvolvimento ou até participação em decisões estratégicas do futebol argentino. Ou pode simplesmente ser o papel que o próprio Messi anunciou ao se despedir do Monumental: torcer.

“Agora estarei do outro lado”, disse o argentino, indicando que acompanhará a seleção como torcedor.

A aposentadoria também permite que Messi escolha o que quer deixar para trás

Existe uma característica particularmente interessante na despedida de Messi: ela não parece ter sido provocada por uma queda abrupta de rendimento. O argentino poderia continuar jogando pela seleção. Lionel Scaloni deixou claro que a porta estaria aberta caso ele quisesse voltar.

Essa possibilidade torna a decisão ainda mais significativa. Messi não está sendo empurrado para fora da seleção. Ele está escolhendo sair.

Isso permite que sua última imagem seja aquela construída no Monumental: o capitão diante de sua torcida, marcando um gol, emocionado e agradecendo por uma história que, durante muito tempo, pareceu não ter o final que todos imaginavam.

Ele poderia esperar mais uma competição, mais uma oportunidade ou mais uma temporada. Preferiu parar agora. Essa escolha também protege o significado de sua trajetória. Não porque Messi precise proteger seu legado, mas porque existe uma diferença enorme entre deixar o futebol depois de decidir que chegou a hora e permanecer até que o futebol tome essa decisão por você.

No caso de Messi, a despedida aconteceu enquanto ainda havia uma porta aberta para continuar.  No entanto, seu desafio agora é outro. Não será conquistar mais uma Copa.

Será descobrir como transformar uma carreira que já entrou para a história em um legado que continue existindo mesmo quando os gols finalmente terminarem.nE, nesse sentido, a aposentadoria da seleção de Messi não parece tanto um ponto final. Parece o começo de uma segunda era.

(Foto: Luis Robayo/AFP)