O empate por 1 a 1 no Gre-Nal 455, disputado na Arena pela 30ª rodada do Brasileirão, deixou um gosto amargo para os dois lados, embora por motivos diferentes. O Internacional teve um primeiro tempo superior, encontrou o caminho do gol e parecia ter condições de conquistar uma vitória fundamental na luta contra o rebaixamento. O Grêmio, por sua vez, voltou a apresentar dificuldades coletivas, com erros técnicos e pouca capacidade de construir jogadas, mas conseguiu reagir na segunda etapa e evitar uma derrota que agravaria ainda mais sua situação.
O resultado manteve as duas equipes nas posições em que começaram a rodada: o Grêmio na 18ª colocação, com 31 pontos, e o Inter em 17º, com 32, ainda dentro da zona de rebaixamento. Em um campeonato no qual cada ponto pode definir a permanência na Série A, o empate teve consequências importantes, mas não resolveu os problemas de nenhum dos rivais. Para o Colorado, ficou a frustração de não transformar a superioridade inicial em três pontos. Para o Tricolor, o alívio pelo empate veio acompanhado da constatação de que o trabalho de Renato Gaúcho ainda está longe de produzir a reação esperada.
O clássico também deixou duas impressões distintas sobre o momento dos clubes. Eduardo Baptista começa a dar ao Inter uma identidade mais reconhecível, com maior capacidade de pressionar e aproveitar erros adversários, enquanto o Grêmio continua buscando uma estrutura coletiva que permita competir com regularidade. A diferença entre as equipes apareceu sobretudo no primeiro tempo, mas o empate mostrou que nenhuma delas conseguiu sustentar seu melhor momento durante os 90 minutos.
Inter encontra caminhos para atacar, mas volta a desperdiçar oportunidades
Eduardo Baptista repetiu a escalação que havia vencido o Corinthians na rodada anterior, preservando a estrutura defensiva com Bruno Gomes, Mercado e Juninho, além de Alan Patrick como principal articulador e Vitinho e Alerrandro no ataque. A manutenção da equipe ajudou a dar continuidade ao trabalho iniciado pelo treinador, que parece estar conseguindo estabelecer comportamentos mais claros em um momento de pressão máxima.
Desde os primeiros minutos, o Internacional mostrou maior capacidade de encontrar espaços e incomodar a defesa gremista. A equipe procurou pressionar a saída de bola, acelerar as jogadas quando recuperava a posse e explorar as oportunidades que apareciam diante de um adversário com dificuldades para organizar sua construção ofensiva.
O problema é que a superioridade não se traduziu em uma vantagem proporcional ao volume criado. O Inter terminou a partida com 14 finalizações, mas apenas quatro acertaram o alvo. A estatística resume uma dificuldade que acompanha a equipe ao longo da temporada: conseguir chegar em boas condições de finalizar sem necessariamente transformar essas situações em gols.
Vitinho foi um dos exemplos mais claros. Antes de marcar, o atacante teve oportunidades que não chegaram a ameaçar seriamente Weverton. Juninho também esteve perto de abrir o placar aos 28 minutos, mas viu a bola passar rente à meta. Eram lances que poderiam ter dado ao Colorado uma vantagem mais confortável e diminuído a necessidade de administrar um resultado apertado na segunda etapa.
O gol, por outro lado, revelou uma característica positiva. Alerrandro pressionou Villasanti, aproveitou o erro do volante na saída de bola e recuperou a posse. Ao perceber Weverton fora da área, Vitinho executou uma finalização por cobertura e marcou um belo gol. Mais do que a qualidade do chute, o lance mostrou uma equipe atenta para reconhecer o erro adversário e transformar uma oportunidade em vantagem.
Essa capacidade de pressionar e ser oportunista é um sinal importante para Baptista. O Inter não precisa dominar todos os jogos para conquistar pontos na luta contra o rebaixamento, mas precisa aproveitar melhor os momentos em que consegue impor seu ritmo. No Gre-Nal, fez isso durante boa parte do primeiro tempo, mas não encontrou a eficiência necessária para transformar a superioridade em uma vitória que poderia alterar a situação na tabela.
A saída de Alan Patrick muda o jogo e expõe a fragilidade colorada
Se o primeiro tempo ofereceu motivos para otimismo, a etapa final mostrou como o Internacional ainda depende de determinadas peças para manter o controle da partida. Alan Patrick deixou o campo com dores na coxa, enquanto Thiago Maia precisou sair por causa de câimbras. Sem dois jogadores importantes para a organização e a sustentação do meio-campo, o Colorado perdeu capacidade de reter a bola e passou a sofrer maior pressão.
A mudança não foi apenas física. Com menos alternativas para controlar a posse e conectar defesa e ataque, o Inter encontrou dificuldades para continuar ameaçando o Grêmio e começou a recuar. O time passou a defender mais perto da própria área, dando ao rival espaço para avançar e aumentando a importância da organização defensiva.
Foi nesse cenário que reapareceu um problema antigo: a vulnerabilidade em bolas paradas. O Grêmio conseguiu chegar ao empate em uma jogada desse tipo, aproveitando uma situação na qual a defesa colorada não conseguiu impedir a finalização. A falha de Anthoni também pesou no lance e acabou custando caro a uma equipe que, até então, parecia ter encaminhado um resultado importante.
O gol sofrido expôs a contradição do momento vivido pelo Inter. A equipe apresenta sinais de evolução na pressão e na construção ofensiva, mas ainda não consegue combinar essas melhorias com a segurança necessária para sustentar uma vantagem. Contra um rival que atravessa uma crise técnica, o Colorado teve condições de controlar o clássico, mas permitiu que a partida voltasse ao equilíbrio.
As substituições posteriores dos dois lados deixaram o jogo mais desorganizado. Os erros se multiplicaram, as equipes perderam qualidade na circulação e faltaram oportunidades claras para que alguém conquistasse a vitória nos minutos finais.
Por isso, o empate deve ser interpretado com cautela. Pela situação na tabela e por jogar na casa do rival, o ponto tem valor. Pelo desempenho apresentado no primeiro tempo, entretanto, o Inter deixou escapar uma oportunidade de ouro. Os quatro pontos conquistados nos últimos dois jogos indicam uma possível mudança de trajetória, mas a equipe ainda precisa aprender a transformar bons períodos de atuação em resultados completos.
Grêmio empata, mas continua sem apresentar um modelo de jogo convincente
O cenário do Grêmio é mais preocupante porque as dificuldades coletivas persistem mesmo depois da mudança no comando técnico. Renato Gaúcho ainda não conseguiu interromper a sequência negativa, e o empate no clássico aumentou a pressão sobre um trabalho que precisa apresentar respostas rapidamente.
A escalação inicial teve um acerto importante: a entrada de Krovinovic como titular ofereceu ao time um jogador capaz de dar mais qualidade técnica à circulação da bola. O meia foi responsável por alguns dos poucos momentos de criatividade gremista, mas sua presença não foi suficiente para resolver os problemas de organização que acompanham a equipe.
O Grêmio continua demonstrando dificuldades para conectar os setores, progredir com a posse e construir ataques de maneira consistente. Os nove meses anteriores sem um modelo de jogo claramente estabelecido ainda cobram seu preço, e a chegada de Renato não parece ter produzido uma transformação no comportamento coletivo.
A pressão da luta contra o rebaixamento também pesa. Em vez de atuar com a tranquilidade necessária para executar as jogadas, o time parece frequentemente condicionado pelo medo de errar. A dificuldade de construir com qualidade leva a decisões precipitadas, enquanto os erros individuais aumentam a insegurança de um grupo que precisa urgentemente recuperar a confiança.
O lance do gol colorado foi a representação mais evidente desse problema. Villasanti, um dos jogadores mais confiáveis do elenco desde sua chegada em 2021, cometeu um erro incomum ao receber um passe simples de Weverton na intermediária. Desarmado por Alerrandro, deixou o goleiro fora de posição e permitiu que Vitinho marcasse por cobertura.
A falha individual foi grave, mas o impacto do lance também esteve relacionado ao contexto. O Grêmio já encontrava dificuldades para construir e precisava de estabilidade para enfrentar um adversário que pressionava com mais organização. O erro de Villasanti comprometeu ainda mais um primeiro tempo no qual o time não conseguiu oferecer uma resposta consistente.
O empate evitou que o resultado fosse ainda pior, mas não elimina a necessidade de mudanças. Renato precisa encontrar uma estrutura capaz de reduzir os erros, melhorar a saída de bola e dar aos jogadores referências mais claras sobre como atacar e defender. A experiência do treinador pode ajudar a reorganizar o ambiente, mas a urgência da tabela exige que essa evolução apareça dentro de campo.
Erros individuais e limitações ofensivas impedem a reação gremista
A dificuldade do Grêmio não se resumiu ao erro de Villasanti. Os problemas apareceram em diferentes setores e limitaram a capacidade da equipe de aproveitar os momentos em que conseguiu avançar.
Os laterais Diego Caito e Marlon, ambos voltando de lesão, tiveram dificuldades para dar qualidade às ações pelos corredores. Os cruzamentos e passes errados comprometeram as tentativas de progressão, enquanto os pontas não conseguiram oferecer a profundidade e a eficiência necessárias para desequilibrar o confronto.
Amuzu também teve uma oportunidade importante de mudar o rumo do clássico. Aos 18 minutos do primeiro tempo, o atacante ficou cara a cara com Anthoni, mas desperdiçou uma chance clara. O lance foi especialmente relevante porque aconteceu quando o placar ainda estava zerado e poderia ter dado ao Grêmio uma vantagem capaz de alterar a dinâmica da partida.
O banco também não conseguiu produzir o impacto esperado. Enamorado, que entrou para dar velocidade ao ataque, movimentou-se bastante, mas errou no acabamento das jogadas. Braithwaite, por sua vez, tentou participar da construção mais afastado da área, sem conseguir reproduzir a influência que já teve em outros momentos da carreira.
Em um time que sofre para criar oportunidades claras, a falta de eficiência dos atacantes torna a situação ainda mais complicada. O Grêmio não pode depender apenas de bolas paradas ou de erros do adversário para marcar. Precisa construir jogadas que permitam aos seus homens de frente finalizar em condições favoráveis.
A defesa, ao menos, ofereceu alguns sinais positivos. Kannemann foi um dos destaques da equipe, com boas antecipações, firmeza na marcação e segurança nas disputas aéreas. Wallace também conseguiu se recuperar de um primeiro tempo irregular na saída de bola e terminou a partida com o gol de empate, apesar de atuar com o nariz fraturado.
O desempenho dos zagueiros ajudou a impedir que o Inter transformasse sua superioridade inicial em uma vantagem maior. Ainda assim, a resistência defensiva não resolve o problema central do Grêmio: a equipe precisa encontrar uma maneira mais consistente de jogar para deixar de depender de episódios isolados.
A luta contra o rebaixamento não permite mais desperdiçar rodadas
O empate manteve o Grêmio na 18ª colocação, com 31 pontos, enquanto o Internacional chegou a 32 e permaneceu em 17º. O Corinthians, com uma vitória a mais que o Tricolor, continua à frente do rival gaúcho na classificação. Com oito rodadas restantes, a margem para recuperação começa a diminuir.
Renato Gaúcho trabalha com a referência de 43 pontos para alcançar a permanência na Série A. Para chegar a essa marca, o Grêmio precisa somar 12 dos 24 pontos que ainda estarão em disputa, o equivalente a 50% de aproveitamento. Até aqui, o time conquistou apenas 34% dos pontos possíveis, o que mostra a dimensão do esforço necessário para escapar da zona de rebaixamento.
A sequência restante inclui partidas em casa contra Cruzeiro, Athletico-PR, Bahia e Mirassol, além de compromissos fora contra Coritiba, Cruzeiro, Santos e Corinthians. Os jogos na Arena podem representar uma oportunidade importante para recuperar terreno, mas isso dependerá de uma melhora significativa no desempenho coletivo.
O Internacional também precisa aproveitar as próximas rodadas para deixar a zona de rebaixamento. O empate no clássico não foi suficiente para isso, e a equipe terá de corrigir a baixa eficiência ofensiva e os problemas defensivos que voltaram a aparecer. Ainda assim, o trabalho de Eduardo Baptista começa a apresentar sinais de evolução, especialmente pela capacidade de pressionar e criar oportunidades contra um rival direto.
O Gre-Nal 455 terminou sem vencedor, mas não deixou as duas equipes na mesma situação emocional. O Inter saiu frustrado por ter desperdiçado uma oportunidade de vitória, embora possa encontrar confiança na evolução demonstrada durante o primeiro tempo e nos quatro pontos conquistados nos últimos dois jogos. O Grêmio conseguiu evitar a derrota, mas continua sem apresentar um futebol capaz de sustentar a esperança de recuperação.
A reta final do campeonato exigirá mais do que declarações de confiança ou mudanças pontuais na escalação. O Internacional precisa aprender a proteger suas vantagens e aproveitar melhor as chances criadas. O Grêmio precisa reconstruir seu funcionamento coletivo antes que a pressão da tabela torne cada erro ainda mais difícil de corrigir.
Em um clássico no qual a tensão da luta contra o rebaixamento pareceu falar mais alto do que a qualidade técnica, o empate serviu como retrato de duas crises diferentes. O Inter começa a encontrar um caminho, mas ainda não consegue percorrê-lo até o fim. O Grêmio, por sua vez, segue procurando uma direção enquanto o tempo para reagir fica cada vez menor.
(Foto: Roberto Vinicius/AGIF)



