inglaterra kane e bellingham
Futebol Copa do Mundo

Inglaterra transforma fracassos em força e mostra como a mentalidade mudou sua história em grandes torneios

Durante muitos anos, falar da seleção da Inglaterra em Copas do Mundo e Eurocopas era quase sempre sinônimo de frustração. Mesmo chegando às competições cercada de expectativa, a Inglaterra repetia eliminações precoces, desperdiçava gerações talentosas e acumulava derrotas marcantes. O país que criou o futebol parecia incapaz de transformar o potencial de seus jogadores em conquistas dentro de campo.

Essa realidade, no entanto, começou a mudar nos últimos anos. A classificação para a semifinal da Copa do Mundo de 2026 representa muito mais do que uma boa campanha. Ela confirma uma transformação construída ao longo de quase uma década, iniciada após um dos momentos mais traumáticos da história recente da seleção e consolidada através de uma mudança de cultura dentro do elenco.

A vitória sobre a Noruega por 2 a 1, decidida com dois gols de Jude Bellingham, colocou a Inglaterra entre as quatro melhores seleções do mundo pela quarta vez nas últimas cinco grandes competições. Antes da Copa de 2018, os ingleses haviam alcançado essa fase apenas quatro vezes em toda sua história.

Mais do que os resultados, a forma como a equipe passou a competir mostra que a principal evolução talvez não tenha sido técnica, mas mental.

Da humilhação para a reconstrução: como a derrota para a Islândia mudou a Inglaterra

inglaterra x islandia 2016
Foto: EuroSports

Poucas derrotas provocaram tanto impacto no futebol inglês quanto a eliminação para a Islândia na Eurocopa de 2016.

Naquele torneio, a Inglaterra era amplamente favorita contra uma seleção que possuía pouco mais de 300 mil habitantes e ocupava apenas a 34ª posição do ranking da FIFA antes do início da competição.

Mesmo assim, foi derrotada por 2 a 1 nas oitavas de final.

O resultado rapidamente entrou para a lista das maiores vergonhas da história da seleção inglesa, sendo comparado apenas à surpreendente eliminação diante dos Estados Unidos na Copa do Mundo de 1950.

As críticas foram imediatas.

O ex-atacante Alan Shearer definiu aquela atuação como a pior que havia visto da Inglaterra em toda sua vida.

Segundo ele, a equipe foi dominada física, técnica e taticamente durante os 90 minutos, além de transmitir a impressão de que o treinador Roy Hodgson improvisava suas decisões ao longo da partida.

O ambiente dentro da seleção também refletia esse momento.

Durante muitos anos, a Inglaterra conviveu com elencos extremamente talentosos que nunca conseguiram funcionar como um verdadeiro grupo.

O exemplo mais citado continua sendo a chamada “Geração de Ouro” dos anos 2000.

David Beckham, Steven Gerrard, Frank Lampard, Rio Ferdinand, John Terry, Ashley Cole, Wayne Rooney e Michael Owen formavam um dos elencos mais fortes do futebol mundial.

Ainda assim, a equipe nunca passou das quartas de final de uma Copa do Mundo.

Anos depois, o próprio Steven Gerrard fez uma análise contundente daquele período.

Em entrevista ao ex-companheiro Rio Ferdinand, afirmou que aquele grupo era formado por “perdedores egoístas”.

Segundo o ex-capitão do Liverpool, faltava união.

Os jogadores não criavam laços fora de campo e nunca desenvolveram o espírito coletivo necessário para vencer grandes torneios.

Foi justamente esse aspecto que Gareth Southgate decidiu transformar quando assumiu a seleção após o fracasso na Euro de 2016.

Mais do que mudanças táticas, seu trabalho priorizou o fortalecimento do ambiente interno, aproximando jogadores e criando uma identidade coletiva.

Os números mostram uma Inglaterra completamente diferente nos grandes torneios

Inglaterra x México

A mudança de mentalidade rapidamente começou a aparecer dentro de campo.

Desde a Copa do Mundo de 2018, a Inglaterra alcançou quatro semifinais em cinco grandes competições disputadas.

Antes desse período, havia chegado entre as quatro melhores apenas quatro vezes em toda sua história.

A única eliminação antes das semifinais aconteceu na Copa do Mundo de 2022, quando caiu diante da França, então atual campeã mundial.

Outro aspecto que evidencia essa evolução aparece nas disputas por pênaltis.

Durante décadas, esse fundamento parecia representar um verdadeiro trauma nacional.

Até 2018, a Inglaterra havia vencido apenas uma disputa por pênaltis em Copas do Mundo e Eurocopas, justamente contra a Espanha, na Euro de 1996.

Nas outras seis oportunidades, saiu derrotada.

Nos últimos anos, esse cenário mudou completamente.

A seleção eliminou a Colômbia nos pênaltis na Copa de 2018, venceu a Suíça na Eurocopa de 2024 e também superou os suíços na Liga das Nações de 2019.

Embora tenha perdido a final da Euro de 2020 para a Itália nas penalidades, o retrospecto recente mostra uma equipe muito mais preparada emocionalmente para momentos decisivos.

Essa força mental também apareceu durante a atual Copa do Mundo.

Nas oitavas de final, diante do México, a Inglaterra precisou atuar boa parte da partida com um jogador a menos e conseguiu sustentar a vantagem em pleno Estádio Azteca.

Já nas quartas de final contra a Noruega, voltou a mostrar poder de reação.

Pela segunda vez no torneio, saiu atrás do placar e conseguiu buscar a virada.

Em ambos os jogos, a equipe demonstrou maturidade para suportar momentos de pressão, característica que durante muitos anos faltou às seleções inglesas.

Tuchel herdou um novo ambiente e acrescentou uma mentalidade vencedora

Thomas Tuchel Manchester United Inglaterra

Quando Thomas Tuchel assumiu o comando da Inglaterra, encontrou um cenário muito diferente daquele existente dez anos antes.

Grande parte da reconstrução já havia sido realizada por Gareth Southgate.

Cabia ao treinador alemão acrescentar sua experiência adquirida em clubes como Borussia Dortmund, PSG, Chelsea e Bayern de Munique.

Sua influência aparece principalmente na competitividade da equipe.

Mesmo quando o desempenho técnico não é brilhante, a Inglaterra consegue encontrar maneiras diferentes de vencer.

A campanha nesta Copa do Mundo comprova isso.

Em diversos momentos, a seleção esteve longe de apresentar um futebol dominante.

Ainda assim, conseguiu sobreviver aos momentos difíceis e permanecer viva na competição.

Após a vitória sobre o México, Alan Shearer mudou completamente sua avaliação sobre a equipe.

O mesmo comentarista que criticou duramente a Inglaterra em 2016 afirmou que aquela havia sido a melhor atuação coletiva da seleção em toda sua vida.

Para ele, todos os jogadores contribuíram para a vitória, assim como Tuchel, que acertou nas substituições e administrou corretamente o restante da partida.

O treinador também destacou repetidas vezes a importância da mentalidade do elenco, principalmente após a classificação contra a Noruega.

Jude Bellingham simboliza bem essa nova postura.

Autor dos dois gols da vitória nas quartas de final, o meio-campista voltou a decidir um jogo eliminatório poucos dias depois de também ter sido protagonista diante do México.

Sua capacidade de assumir responsabilidades nos momentos mais importantes representa exatamente o perfil que a Inglaterra buscou desenvolver desde a mudança iniciada em 2016.

É verdade que alguns analistas apontam que os ingleses tiveram caminhos teoricamente mais acessíveis em algumas competições recentes.

Os números, relativizam esse argumento.

A diferença média entre o ranking da FIFA dos adversários enfrentados antes e depois da mudança de ciclo é inferior a quatro posições, mostrando que o crescimento inglês não pode ser explicado apenas pelo nível dos oponentes.

Agora, diante da Argentina, a Inglaterra terá um dos maiores testes de sua geração.

Independentemente do resultado, a campanha confirma uma transformação profunda.

A seleção que durante décadas era lembrada por fracassos, eliminações traumáticas e falta de personalidade passou a frequentar regularmente as fases decisivas das grandes competições.

O título mundial continua sendo o grande objetivo desde 1966, mas a trajetória recente mostra que, pela primeira vez em muitos anos, a Inglaterra chega aos momentos decisivos acreditando que possui não apenas qualidade técnica, mas também a força mental necessária para disputar o troféu até o fim.

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Kaique